Ação da Petrobrás, só no longo prazo

Papéis da empresa se recuperaram em agosto, mas a interferência do governo na companhia tem desagradado aos investidores

YOLANDA FORDELONE, ESTADAO.COM.BR, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2012 | 03h05

Discussões recentes sobre o reajuste dos combustíveis e a percepção de que a parte operacional da Petrobrás vai melhorar impulsionam as ações da estatal em agosto, mas alta em 2012 deve ser pequena

A recuperação recente das ações da companhia, que em agosto estão com o dobro da valorização do Ibovespa, não deve se sustentar, segundo analistas. O movimento atual é resultado de especulações sobre um possível reajuste de preços dos combustíveis. Contudo, a constante - e cada vez maior - interferência do governo desagrada aos investidores. O mais provável é que as ações da Petrobrás caminhem para mais um ano de resultado inferior ao do Ibovespa. Se confirmado, será o sexto consecutivo.

O ano da descoberta do pré-sal, em 2007, foi o último em que a Petrobrás superou o principal índice de ações da Bolsa. Desde então, fatores como a preocupação com o marco regulatório, hoje já sancionado, a capitalização recorde em 2010, considerada insuficiente para cobrir os investimentos que a companhia precisa fazer, e mais recentemente a influência política sobre a empresa prejudicaram a ação.

A Petrobrás também carrega o bônus e o ônus de ser uma blue chip do mercado, uma das empresas com maior volume de negócios na Bolsa. Grande parte das ações em mercado (56% de seu capital social) está nas mãos de investidores estrangeiros, que diante da crise estão mais sensíveis a oscilações e resgatam o dinheiro ao menor sinal negativo.

Alta. No início do mês, a empresa divulgou um prejuízo líquido de R$ 1,346 bilhão no segundo trimestre deste ano, o primeiro em 13 anos.

"O mercado ficou assustado, mas há alguns fatores que explicam o bom desempenho da ação após a divulgação do balanço. A companhia mudou a filosofia para ajustar as métricas de produção e as expectativas ficaram mais próximas da realidade. Houve a confirmação de óleo de boa qualidade na área de Carcará e, como as métricas estão mais factíveis, a partir de agora toda notícia relacionada ao potencial dos campos terá impacto positivo", dizem os analistas da corretora Coinvalores, Marco Aurélio Barbosa e Bruno Piagentini.

O resultado negativo do balanço também reflete o câmbio desvalorizado, que prejudicou os contratos da empresa. A venda de combustíveis no mercado doméstico também pesou, já que a companhia subsidia os preços, vendendo gasolina e gás por um valor menor do que é praticado no exterior. Com base nas declarações recentes do governo, investidores especulam sobre um possível reajuste nos preços, para corrigir essa defasagem, o que tem impactado no preço das ações. Até sexta-feira, as ações ordinárias acumulavam no mês alta de 12,32% e as preferenciais, de 10,56%, ante um Ibovespa de 5,32%.

"Surgiu a expectativa de reajuste de combustível ainda nesse ano. Estou otimista quanto a isso por conta da fala do ministro Lobão", diz o analista da SLW, Erick Hood. A crescente discussão em torno do assunto fez o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, sair em defesa do reajuste, afirmando que o governo pode ceder à pressão e que a possibilidade existe, mas não é decisão fechada. "Ajudaria a empresa a recuperar margem, diminuir a defasagem de preços, o que impactaria já nos próximos resultados", diz Hood.

Longo prazo. No ano, no entanto, o desempenho da empresa está atrás do Ibovespa, que sobe 4,10% contra alta de somente 0,23% da ação ON e de 2,82% da PN. "A empresa teve os dois primeiros meses do ano muito bons, mas depois ficou para trás porque anda mal. O preço estava antecipando esse resultado trimestral. A sensação agora é que o pior resultado já passou, apesar de eu não acreditar em um reajuste no curto prazo", diz o analista-chefe da Ativa Corretora, Ricardo Corrêa.

Segundo ele, a alta de agosto reflete o reposicionamento de grandes investidores, que haviam vendido a ação. "Houve sinalização da empresa de aprimoramento da parte operacional. Esse trabalho deve render frutos, trazer fluxo de caixa mais previsível, mas só a partir do ano que vem", frisa Corrêa.

Para o futuro, as previsões são melhores, de acordo com levantamento do AE Consenso, da Agência Estado. Oito analistas indicam compra das preferenciais, três das ordinárias e somente um sugere manutenção, ou seja, quem já é acionista mantém o papel, mas quem não é, não adquire.

O preço-alvo médio apontado nessa pesquisa para 2012 é de R$ 30,88 na ON e R$ 29,99 a PN.

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