Sergio Roberto Oliveira/Estadão
Sergio Roberto Oliveira/Estadão

Siderúrgicas e construtoras travam queda de braço sobre corte de imposto do aço

Setor de construção alega que alta do preço do aço pressiona custos, mas siderúrgicas contestam os números apresentados; governo se preocupa com o risco de aumento de demissões no segundo semestre, durante a campanha eleitoral

Lorenna Rodrigues e Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2022 | 19h43
Atualizado 11 de maio de 2022 | 10h29

BRASÍLIA - A possibilidade de o governo zerar a tarifa de importação do aço para ajudar no combate à inflação colocou em oposição dois gigantes da indústria nacional: os setores de siderurgia e da construção civil. O pano de fundo é a preocupação do governo com o risco de um aumento de demissões no segundo semestre no Brasil, justamente no auge da campanha eleitoral, que tem o presidente Jair Bolsonaro como candidato à reeleição.

Após reportagem do Estadão revelar na segunda-feira, 9, que o governo estava pronto para oficializar a medida, lideranças do setor desembarcaram hoje em Brasília para tentar reverter a medida, que será decidida em reunião nesta quarta-feira, 11. Outros 10 itens também deverão ter a tarifa cortada, incluindo alimentos e insumos da construção civil.

Depois de um encontro com o ministro da Economia, Paulo Guedes, os representantes das siderúrgicas foram até o Palácio do Planalto. Nas reuniões, ressaltaram que o setor tem dado apoio ao governo Bolsonaro e, agora, podem ser penalizados com essa medida, segundo apurou a reportagem.        

O presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo Lopes, disse que a redução do imposto de importação entrou no radar do governo a pedido da construção civil, que reclamou do aumento dos preços dos vergalhões utilizados no setor. Ele acusou o segmento de repassar ao ministro da Economia, Paulo Guedes, dados incorretos, como do aumento de preços de mais de 100% e de que está havendo demissão. “Isso não procede. Guedes falou de pressão intensa da construção civil, eles trouxeram ao ministro informações que não procedem”, disse Lopes. 

A resposta chegou rápido. O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), José Carlos Martins, reagiu às declarações. “Não estamos demitindo porque honramos nossos compromissos. Estamos assumindo custos que eles nos geram e irão gerar desemprego futuro”, disse ele. As declarações foram feitas enquanto Polo ainda dava entrevista. Para ele, é desespero das siderúrgicas.

“Nós nunca noticiamos isso, pelo contrário. Todas as nossas estatísticas mostram que estamos contratando. O que disse ao Paulo Guedes: a venda de hoje é emprego de amanhã. Não vender hoje significa que na eleição em outubro vai ter desemprego”, revelou Martins. Segundo ele, a Cbic está pronta para um debate público para clarear todos os pontos. Ele ponderou que um terço do aumento de custo vem da alta do aço.

Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) divulgou nota na noite desta terça-feira para reforçar posição defendida pelo presidente da Cbic em relação ao preço do aço. Segundo a Abrainc, o material tem impactado o setor principalmente nos últimos dois anos, após sofrer, segundo a associação, uma variação de 101%. "O custo do aço no Brasil sempre foi um dos mais baratos do mundo, mas agora a situação mudou, principalmente quando  comparamos o poder de compra do brasileiro em relação aos imóveis", diz a nota assinada pelo presidente da Abrainc, Luiz França. 

Insumo elevado

O Estadão teve acesso ao estudo apresentado ao ministro Paulo Guedes pela Cbic. Os dados mostram que o insumo com maior peso no aumento do custo de material de construção, observado entre julho de 2020 e janeiro de 2022, foi o aço.  O presidente da Cbic citou que o programa Casa Verde e Amarela, por exemplo, não tem reajuste. "Vendeu em 2020, subiu 30%, 40% o custo do material, e tem que honrar", explicou. Ele ressaltou que 34% do aumento de custo do programa em um ano é do custo do aço.

Segundo Martins, o presidente de uma empresa siderúrgica declarou que eles estavam aproveitando a desvalorização do real para aumentar os preços. A queixa é que desde junho de 2020, depois que o mercado aqueceu novamente, as empresas estão controlando a oferta para que seja inferior a demanda. E, com isso, pressionar os preços.

Em nota divulgada nesta terça, a Abrainc também citou o impacto dos preços do aço no custo das obras do programa Casa Verde e Amarela.  Na avaliação do presidente da Abrainc, Luiz França, o impacto da alta do aço sobre o segmento é "enorme pela magnitude do programa de moradia popular".  "Não é correto pensar que essa variação prejudique uma ou outra empresa. Isso é um grande erro, uma vez que o CVA (programa Casa Verde e Amarela), por exemplo, representa 80% de todas as moradias construídas no Brasil e, com isso, gera anualmente 1,4 milhão de empregos."

Já o setor de aço diz que há oferta abundante do produto no Brasil e que, enquanto na Europa os preços subiram mais de 100% e, nos Estados Unidos, 70%, no Brasil a alta foi de 40%.

O anúncio da redução do tributo derrubou ações das siderúrgicas, com Usiminas, CSN e Gerdau caindo 6,78%,5,82% e 4,36%, respectivamente. 

Após a reunião, participantes do setor privado disseram que Guedes “se sensibilizou” e pediu que a equipe reavalie a questão. De acordo com o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo Lopes, o que está em discussão no governo é a redução do tributo apenas para vergalhões, de 10,8% para 4% e não todos os produtos derivados de aço, como foi noticiado.

Na reunião, Guedes disse que a “grande preocupação” do governo é o combate à inflação, o que, para os representantes da indústria, não será resolvido com a redução do imposto de importação, já que o vergalhão de aço tem pouco impacto no preço dos produtos. “O mercado está abastecido, o Brasil tem o vergalhão mais barato do mundo”, disse Marco Polo.

O presidente do Conselho Diretor do Aço Brasil e vice-presidente da Gerdau Aços Brasil, Argentina e Uruguai, Marcos Faraco, disse que a decisão é “inócua” e atende apenas segmentos que querem aumentar a margem de seus negócios. “Nossa expectativa é que o governo reverta a decisão", afirmou. / COLABOROU SANDRA MANFRINI

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