Yara Nardi/Reuters
Yara Nardi/Reuters

Aço leva Brasil a abrir disputa com os EUA

Processo começa ainda sob Obama, mas será analisado no futuro governo Trump, que promete elevar tarifas

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2016 | 06h00

GENEBRA - O presidente eleito dos EUA, Donald Trump, vai encontrar em sua mesa assim que assumir um importante dossiê: uma disputa com o Brasil no comércio de aço, sua principal bandeira usada na campanha para angariar o voto dos descontentes com a globalização. O Itamaraty vai abrir uma queixa contra o governo dos EUA na Organização Mundial do Comércio (OMC) e se o processo será ainda iniciado sob a gestão de Barack Obama, será no governo de Trump que o caso de fato terá de ser lidado. 

O processo será apresentado à secretaria da OMC até sexta-feira desta semana e a decisão política já foi tomada. O contencioso se refere a uma sobretaxa sobre o aço laminado brasileiro que foram impostas contra o país há dois meses. Mas o setor nacional já vinha sendo afetado há meses, desde que os americanos passaram a investigar as exportações nacionais. Washington acusa a produção brasileira de ser subsidiada e, portanto, entrando no mercado dos EUA com preços injustos. 

Empresas como a CSN e Usiminas passaram a ser sobretaxas em 11%, afetando a capacidade dessas exportações competirem no mercado americano. Apenas em 2015, o Brasil vendeu quase US$ 1,3 bilhão em chapas de aço laminado ao mercado americano.

Mas Trump prometia até mesmo elevar as tarifas de importação e rever acordos comerciais. Em muitos de seus discursos, a proteção ao setor do aço americano foi o carro-chefe da campanha de Trump nos EUA, principalmente nos estados com altas taxas de desemprego. Num dos debates com Hillary Clinton, o presidente eleito chegou a dizer que visitou comunidades afetadas pela "invasão (do aço) da China e de todas as partes do mundo". 

Trump ainda contratou como seu principal assessores para comércio um ex-CEO de uma siderúrgica local. O escolhido foi Dan DiMicco, ex-presidente da siderurgica Nucor Corp. Conhecido como um crítico do livre-comércio, ele acaba de publicar um livro sobre como apenas a produção nos EUA pode voltar a "fazer a economia americana forte". 

Usando a situação de algumas das cidades afetadas pela importação de aço, portanto, Trump alertou que a globalização havia ajudado a "elite financeira, enquanto deixou milhões de trabalhadores sem nada". Num dos momentos mais importantes da campanha, ele chegou a discursar em uma siderúrgica, em um palco repleto de metal. "Eles conseguem a expansão de seus negócios e nós o desemprego", disse, sobre acordos comerciais. "Isso não vai mais acontecer", prometeu ao eleitorado.

Em outro discurso, em meados de julho, ele ainda alertou que os EUA "já vivem uma guerra comercial". "E estamos sendo derrotados". 

Em setembro, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) já havia aprovado a iniciativa de recorrer OMC contra as sobretaxas impostas pelos Estados Unidos às importações de aço laminado brasileiro. 

Num primeiro momento, o pedido do Brasil levará as duas diplomacias a estabelecer consultas, na esperança de resolver o caso sem o envolvimento de juízes internacionais. Tradicionalmente, porém, as consultas servem apenas para indicar ao parceiro comercial quais serão as áreas questionadas. Um processo, portanto, seria lançado no início de 2017 e se arrastaria por todo o ano. 

Se Trump hoje promete proteger o aço americano, ele é acusado até mesmo por sindicatos de ter erguido seus três últimos projeto de construção com o material chinês, inclusive de empresas que haviam sido apontadas pelas autoridades em Washington como tendo praticado dumping de preços.  

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