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Aço vira questão de governo na Vale

Mineradora é pressionada por Lula para investir em siderúrgicas

David Friedlander, O Estadao de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 00h00

Nas raras vezes em que aceita falar dele mesmo, Roger Agnelli costuma puxar do fundo do baú um conselho do pai. "Ele sempre dizia: Peça a Nossa Senhora, mas não corra atrás para ver só o que acontece." O presidente da Vale diz ser devoto sincero de Nossa Senhora, para quem reza todo dia. Imagens da Virgem Maria estão à vista no escritório, nos apartamentos no Rio e em São Paulo, onde mora, e na casa de praia em Angra dos Reis. No plano espiritual, portanto, tudo em ordem com Agnelli. Correr atrás é que tem sido um problema.Poucos executivos souberam aproveitar tão bem quanto ele a fase de prosperidade da economia global. Entre 2001, quando ele assumiu o comando da Vale, e 2008, a produção de minério de ferro dobrou, o lucro líquido médio anual subiu de US$ 994 milhões para US$ 5 bilhões e a Vale pulou do quinto para o segundo lugar no ranking mundial das mineradoras.Agora, Agnelli precisará mostrar habilidade para tocar a companhia também nas condições adversas da crise. Com uma dificuldade a mais: lidar com os interesses políticos que envolvem a empresa. Privatizada em 1997, ela continua ligada ao governo por meio do fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), dois dos principais acionistas da mineradora. É o que acontece neste momento.A Vale é uma mineradora, mas vem sofrendo pressão do governo para investir em siderurgia. Embora grupos genuínos do setor, como Usiminas e CSN, tenham adiado seus projetos em razão da crise, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou da Vale, em público, a construção de usinas siderúrgicas no Espírito Santo e no Pará. Semana passada, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disse que o governo está preocupado com os projetos siderúrgicos da mineradora. Aço, na Vale, virou questão de governo."É o calendário eleitoral chegando", diz o cientista político Fernando Abrucio. "Nessas horas, empresas que dependem do governo sempre sofrem pressão. No caso da Vale, mais ainda, porque, indiretamente, o governo também é seu sócio."Até por isso, o presidente Lula sente-se à vontade para criticar a direção da mineradora. Ele já repreendeu a Vale por demitir funcionários, fechar minas deficitárias, comprar empresas no exterior e reduzir de US$ 14 bilhões para US$ 9 bilhões o plano de investimentos deste ano."Apesar das críticas, Agnelli fez o que todo executivo na posição dele faria", afirma Marcelo Aguiar, analista de investimentos do Banco Goldman Sachs para a América Latina. "Como ele tem acionistas ligados ao governo, está em posição sempre delicada. Está gerindo a Vale como empresa privada, mas, para fora, o discurso dele é mais político."No caso das siderúrgicas, de acordo com pessoas que acompanham o assunto, Lula prometeu a políticos aliados estimular a construção de siderúrgicas, principalmente em Estados do Nordeste, e jogou a tarefa no colo de Agnelli. O executivo, interessado em atrair clientes estrangeiros - uma maneira de fidelizá-los -, até conseguiu parceiros na Ásia.A siderúrgica sul-coreana DongKuk Steel será sócia da mineradora numa usina a ser instalada no Ceará, avaliada em US$ 1 bilhão. A Baosteel, da China, ia se associar à Vale numa usina no Maranhão, depois transferida para o Espírito Santo. Com a crise, os chineses mudaram de plano e sumiram. A Vale ficou sem parceiro para duas das siderúrgicas que assumiu o compromisso de fazer, no Espírito Santo e no Pará.SEM SÓCIOSHá duas semanas, diante da falta de interessados, a Vale anunciou uma mudança nos planos siderúrgicos. Em vez de procurar um parceiro, vai bancar o começo dos projetos sozinha. Só depois vai à procura de sócios. Antes disso, já tinha anunciado investimento adicional de US$ 1,3 bilhão na Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) para ajudar o grupo alemão ThyssenKrupp a terminar a obra em construção no Rio de Janeiro."Atrair as siderúrgicas para fomentar a demanda por minério é positivo, mas não faz sentido a Vale virar uma siderúrgica", afirma Rodolfo De Angelis, analista do Banco JPMorgan. Para Felipe Reis, analista de mineração do Banco Santander, a estratégia tem um limite. "Ficaria muito caro tocar todas essas obras só para agradar ao governo. Não acredito que a diretoria da Vale vá fazer algo assim."A situação da siderúrgica que Lula pediu no Pará pode ser uma pista do comportamento de Agnelli. Segundo uma pessoa que acompanhou encontros entre Lula e Agnelli, o presidente pediu que o executivo fizesse um esforço para concretizar o sonho da governadora Ana Júlia. Os estudos da Vale mostraram que o Pará não é o melhor lugar para o empreendimento. O projeto só seria viável se a mineradora não precisasse investir em infraestrutura. ''Agnelli encomendou o projeto, mas disse que, para tocar adiante, o governo deveria construir um porto e uma hidrovia para atender à usina", diz a fonte.Procurados na semana passada, Bradesco, Previ e BNDES não quiseram aparecer nesta reportagem. Na Vale, a assessoria de imprensa informou que Agnelli estava no Maranhão, visitando obras. Esta semana, vai à Colômbia, Peru e Chile. A Vale tem negócios no mundo todo. Assessores de Agnelli fizeram contas e concluíram que, em 2008, o chefe viajou o equivalente a 11,5 voltas ao redor da Terra a trabalho. Acham que este ano ele bate o recorde. Está correndo atrás.

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