Ueslei Marcelino/Reuters
Ueslei Marcelino/Reuters

Ações da JBS retornam ao patamar atingido antes da delação premiada dos irmãos Batista

Nesta quarta-feira, a cotação ficou em R$ 9,75, com alta de 2,74%

Cristian Favaro, Karin Sato e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2017 | 22h00

As ações da empresa de alimentos JBS recuperou nesta quarta-feira, 27, a cotação que tinha antes da divulgação da delação premiada dos irmãos Joesley e Wesley Batista. O evento de sete meses atrás, que marcou a bolsa de valores em 2017, levando até ao acionamento do mecanismo de circuit breaker, veio à tona na noite de 17 de maio, após o fechamento do pregão. Naquele dia, o papel da JBS havia se encerrado a R$ 9,50, conforme dados do Estadão/Broadcast. Nesta quarta-feira, a cotação ficou em R$ 9,75, com alta de 2,74%.

Desde a delação de executivos da JBS, a ação protagonizou forte volatilidade na bolsa de valores. Em 22 de maio, quando recuou 31%, atingiu o menor valor desde agosto de 2013, a R$ 5,98. As ordens de venda naquele período tiveram razões diversas: a agência de classificação de risco Moody's anunciou durante o pregão um rebaixamento do rating da empresa; havia um impasse entre o Ministério Público Federal (MPF) e o Grupo J&F, controlador da JBS, em relação ao valor da multa a ser paga para fechar o acordo de leniência, e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) divulgou que investigava o frigorífico por manipulação do mercado. Outro evento relevante para a empresa foi a prisão dos irmãos Batista, em meados de setembro, quando a ação chegou a R$ 8,13. Até o momento Wesley e Joesley Batista permanecem presos na Superintendência da Polícia Federal, em São Paulo.

Como escreveram em relatório publicado na semana passada os analistas do JPMorgan, Pedro Leduc, Ian Luketic e Ulises Argote, a história que deixou uma marca nos investidores da JBS está longe de um desfecho e não é possível prever como será o comportamento da ação daqui para a frente. De um lado, ainda é desconhecido o total dos passivos da empresa. Além disso, os analistas acreditam que a companhia perdeu oportunidades de promover mudanças mais profundas para gerar valor aos minoritários.

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Por outro lado, a empresa deu andamento a planos que foram benéficos aos investidores, como a venda de ativos, reduzindo o risco de falta de liquidez no curto prazo; o fechamento do acordo de leniência por parte da holding da companhia, a J&F; a troca de executivos e a criação de um comitê de governança corporativa.

Ao longo do ano, os riscos relacionados a acontecimentos políticos afugentaram investidores do papel, mas, em termos de fundamentos, o período recente tem sido positivo para o setor de carnes, beneficiando não só a JBS como também as suas concorrentes. A consultora da Agrifatto, Lygia Pimentel, diz que é importante avaliar a recuperação do valor das ações da JBS nesse contexto, e não isoladamente.

"As exportações de carne bovina estão indo bem e, para o ano que vem, com a expectativa de um dólar forte, o setor deve ampliar o faturamento com os embarques externos", diz a consultora.

De fato, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec) divulgou, em 14 de dezembro, que espera fechar o ano de 2017 com faturamento de US$ 6,2 bilhões, cifra 13% acima de 2016. Em quantidade embarcada, o crescimento deve ser de 9%, para 1,53 milhão de toneladas.

Para 2018, a estimativa da Abiec é de faturamento de US$ 6,9 bilhões e um total de 1,65 milhão de toneladas exportadas, com aumentos de 10,5% e de 9,8%, respectivamente, ante 2017.

A consultora da Agrifatto ressalta, também, que é esperada uma margem favorável para o setor frigorífico em geral tanto em 2017 quanto já no primeiro trimestre de 2018, com a aguardada recuperação econômica e do poder de compra do brasileiro.

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Em relação isoladamente à JBS, Lygia assinala que a empresa adotou "boas medidas" para se preservar e mitigar os efeitos da Operação Carne Fraca, em março, mas principalmente as consequências da delação premiada.

Uma das ações que provocaram um susto na cadeia pecuária, também em maio, foi a decisão de a JBS passar a adquirir bois gordos apenas sob pagamento a prazo. Muitos pecuaristas ficaram receosos de entregar a produção para a JBS, pelo risco de calote, e passaram a buscar alternativas em outras empresas - situação muitas vezes complicada, já que a JBS domina o mercado de abates no País.

Enquanto a JBS lutava para manter as operações, suas concorrentes ganharam espaço, o que também se refletiu nas ações. Diante do receio de não receberem da empresa, pecuaristas deram preferência a vender para outros frigoríficos. A Minerva chegou a reabrir plantas em Mato Grosso para conquistar mais mercado. Com isso, as ações da concorrente se valorizaram, enquanto as da JBS recuaram. Os papéis da grande empresa do setor, a Marfrig, por sua vez, mostraram resiliência e tiveram pouca volatilidade ao longo do ano, na comparação com suas pares.

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Pagamentos honrados. A JBS recuperou aos poucos, ao longo do ano, a capacidade de abate e a confiança do setor produtivo, honrando seus pagamentos no mercado físico do boi gordo, mesmo que a prazo. Em 7 de dezembro, o presidente global de Operações da JBS, Gilberto Tomazoni, reconheceu que o pagamento a prazo fez com que a empresa reduzisse o seu nível de produção. "Isso causou uma restrição no volume de abates que podíamos ter, mas mantivemos nossa capacidade instalada, não fechamos nossas fábricas", disse.

Ele acrescentou, na ocasião, que estava em curso uma recuperação desses níveis (de abate) depois que a empresa buscou soluções no mercado financeiro para que criadores pudessem vender no prazo de 30 dias, mas receber antes.

O diretor da Scot Consultoria, Alcides Torres, diz que a simples continuidade das operações da JBS, a despeito do noticiário intenso, trouxe segurança ao setor de carnes, além da renegociação das dívidas de curto prazo, o que pode justificar a recuperação das ações. Ele lembrou que a holding J&F trabalhou intensamente na venda de ativos, numa corrida para se capitalizar. "Temos de reconhecer, eles fizeram um trabalho extraordinário de convencimento junto ao setor produtivo", disse Torres.

Somados a esses fatores, a perspectiva favorável para a economia em 2018 também está ajudando nos ganhos da empresa, na opinião do representante da Scot. "Para o ano que vem, economistas dizem que a recuperação do PIB terá o impulso do consumo das famílias. Se isso acontecer, é claro que afetará positivamente o consumo de proteínas, como carne vermelha, de aves e lácteos", disse. Somado a isso, Torres destacou que 2018 será no de Copa do Mundo, que por si só já traz uma perspectiva de aumento nas vendas de carne nos supermercados.

Relatório do BTG Pactual também traça um cenário positivo em 2018, ao citar o discurso da própria empresa de que está retomando gradualmente a utilização da capacidade no Brasil, para se beneficiar do ciclo positivo do gado, e de que a Seara será favorecida por menores custos de grãos e esforços contínuos para melhorar o mix de vendas. Para as operações nos Estados Unidos, as tendências também são positivas, após as margens recordes registradas nos últimos trimestres.

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O foco da empresa no ano que vem deverá ser na desalavancagem (redução do endividamento). Com geração de caixa mais forte, a JBS espera estar em posição de vantagem para negociar a dívida com bancos.

Alerta ao investidor. Os analistas do JPMorgan acreditam que, no primeiro trimestre de 2018, auditores e autoridades devem abrir dados sobre os passivos da JBS. A empresa pode ser obrigada a pagar impostos e a rever valores de ativos. Outro risco para os investidores é a eventual venda por parte da J&F de ações da JBS, diante da possibilidade de a holding ter de pagar multas e de eventuais mudanças no acordo de leniência. A recomendação do banco é de "neutro", apesar de o papel estar barato.

A equipe de análise do BTG Pactual também tem recomendação de "neutro", com o ceticismo de que os investidores comprarão rapidamente a tese de recuperação do papel, em razão da baixa visibilidade sobre provisões e de outros possíveis eventos futuros.

 

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