AFP PHOTO / Nicholas Kamm
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Dólar fecha estável com atuação do Banco Central

Banco Central muda a estratégia e vende US$ 500 milhões para conter alta da moeda americana; dólar encerrou o dia cotado a R$ 3,78

Fabrício de Castro e Denise Abarca, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 18h17
Atualizado 25 Junho 2018 | 22h37

O reforço da atuação do Banco Central no mercado de câmbio fez o dólar fechar nesta segunda-feira, 25, perto da estabilidade, na contramão do exterior. À tarde, o BC chegou a ofertar US$ 3 bilhões no mercado para tentar segurar a cotação da moeda americana, mas foram vendidos US$ 500 milhões.

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O BC passou a usar mais essa ferramenta para garantir que os bancos tenham dólares para investidores que estão de saída do País. Nesta segunda, o dólar ficou praticamente estável, a R$ 3,78, na contramão da alta da moeda norte-americana frente às moedas de outros emergentes (África do Sul, Turquia e Argentina). 

O BC não detalhou por que a venda ficou bem abaixo da oferta. O fato de não ter colocado tudo o que pretendia pode ser um indicativo de procura reduzida pelo dólar no mercado.

Para Luiz Fernando Figueiredo, sócio da Mauá Capital e ex-diretor do BC, o resultado do leilão é um bom sinal, já que o mercado indicou não estar precisando de dólares. “Foi um sucesso porque a demanda foi baixa.” Segundo ele, a alta do dólar nas últimas semanas não pode ser classificada como um ataque especulativo, mas como uma “situação de defesa”, em que investidores e empresários recorreram à moeda americana para se proteger. 

Agora, após as operações feitas pelo BC para restabelecer a funcionalidade do mercado, o panorama é de relativa tranquilidade, diz. “Essa situação pode se modificar caso a guerra comercial entre EUA e China se intensifique ou se um candidato que não se comprometa com reformas fiscais despontar nas pesquisas eleitorais.”

Ou seja, a estratégia do BC ao ofertar linha (venda de dólar com compromisso de recompra) foi fazer com que a operação tenha efeito psicológico importante para o mercado, mostrando que a instituição está a postos para atender qualquer falta de dólar para empresas ou investidores que precisem da moeda para mandar dinheiro para fora. 

Foi a segunda vez neste ano que o BC realizou o chamado leilão de linha. A data fixada para recompra é 2 de agosto. A última vez que o instrumento foi usado foi no dia 29 de março, em valor menor, de US$ 2 bilhões. A injeção da moeda americana no mercado brasileiro aumenta a oferta e pode pressionar para baixo a cotação. 

Sinalização. Na semana passada, o BC havia indicado, por meio de nota, a realização desta operação e a continuidade dos leilões de swap cambial (equivalentes à venda de dólares no mercado futuro), conforme a necessidade do mercado. Desde maio, o BC já vendeu US$ 43 bilhões em swap. Ontem, no entanto, passou a usar mais uma ferramenta, que é oferecer dólares com compromisso de recompra ao mercado. 

O viés de baixa do dólar ontem também se deu pela cena política, após o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar de pauta o julgamento de um pedido de liberdade do ex-presidente Lula que estava previsto para ocorrer hoje pela 2.ª Turma da corte. Os investidores entendem que, solto, Lula pode atuar como importante cabo eleitoral de um candidato nas eleições.

Bolsa. O volume reduzido de negócios na sessão mostrou pouco interesse dos investidores pelo mercado de ações. Foram movimentados R$ 8,4 bilhões, ante R$ 14,2 bilhões da média diária de junho.

O mercado iniciou o dia com viés comprador, repercutindo a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de retirar da pauta o julgamento de um pedido de liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sob essa percepção de menor risco, o Ibovespa chegou à máxima de 71.323 pontos, subindo 0,97%.

Mas a abertura negativa das bolsas de Nova York anulou o movimento, refletindo os temores de que o governo dos Estados Unidos promova mais medidas protecionistas contra a China, desta vez mirando investimentos chineses em empresas de tecnologia americanas. Assim, o Ibovespa desceu até os 69.779,24 pontos, perdende 1,22% no início da tarde.

O sinal positivo voltou em definitivo somente na última hora de negociação, com as ações da Petrobrás ampliando ganhos e alguns papéis do setor financeiro migrando para o positivo, com destaque para Banco do Brasil ON, que teve alta de 2,91%. No caso da Petrobrás, a alta ocorreu mesmo em meio à desvalorização dos preços do petróleo no exterior. Segundo operadores, contribuiu para os ganhos a notícia da aprovação de um acordo para encerrar uma ação coletiva nos Estados Unidos. Petrobras ON e PN subiram 1,86% e 3,90%.

"Se analisarmos o cenário externo negativo e o doméstico sem notícias boas, o Ibovespa deveria ter caído. A explicação pode estar no simples fato de que as ações estão amassadas demais. A bolsa está barata em reais e mais ainda em dólares", disse Rafael Bevilacqua, estrategista da Levante Ideias de Investimento. Dada a vulnerabilidade do mercado brasileiro, Bevilacqua afirma que uma nova rodada de perdas em Nova York dificilmente será ignorada no Brasil. 

Em Nova York, no pior momento da sessão, o Dow Jones flertou com a queda de 500 pontos. No final, o índice terminou com baixa de 328,09 pontos (-1,33%), aos 24.252,80 pontos. O S&P 500 cedeu 37,81 pontos (-1,37%), para 2.717,07 pontos.

O destaque negativo entre as blue chips ficou com os papéis da Vale, que caíram 1,77%. A queda das ações da mineradora foi atribuída à tensão comercial entre Estados Unidos e China. Apesar de o minério de ferro ter fechado em alta no mercado à vista chinês, outras mineradoras pelo mundo também viram suas ações caírem.

A Vale, a BHP Billiton, a Samarco e os Ministérios Públicos Federais (MPF) de Minas Gerais e Espírito Santo e a Advocacia Geral da União (AGU) conseguiram repactuar o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado para reparação dos danos causados ao longo da Bacia do Rio Doce pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais. / COLABORARAM PAULA DIAS E LUCIANA DYNIEWICZ 

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