Acordo Argentina/FMI se complica de novo

Mais uma vez, quando tudo indicava que o governo do presidente Eduardo Duhalde e o Fundo Monetário Internacional (FMI) estavam perto de chegar a um consenso sobre um acordo financeiro, as negociações deram uma guinada, e o acordo voltou a ficar distante.Os novos impasses ocorreram justamente quando ? segundo o ministério da Economia ? faltavam somente 10% do conteúdo da carta de intenções da Argentina para discutir. Os novos pivôs da discórdia entre Buenos Aires e o FMI são os controles de câmbio e as tarifas de serviços públicos.Mas nesta ocasião, ao contrário das anteriores, a Argentina não conta com tempo de sobra para negociar. O país está pressionado pelos prazos, já que, em novembro, vence uma dívida que tem com o Banco Mundial, de US$ 805 milhões. Se não conseguir o acordo com o FMI, não poderá pagar, e, conseqüentemente, entrará em default, fato que retardaria mais ainda qualquer esperança de acordo financeiro, além de afastar totalmente o país de qualquer possibilidade de receber crédito internacional.Uma missão argentina, integrada pelo secretário de Finanças, Guillermo Nielsen, e outros assessores, está em Washington desde a semana passada, mantendo intensas reuniões com representantes do Fundo. As negociações complicaram-se nos últimos dias, quando o FMI exigiu que o governo permita que as empresas privatizadas de serviços públicos possam implementar aumentos de suas tarifas.Esta exigência foi reforçada com pressões dos governos da França, Itália e Espanha, países de origem de empresas que controlam grande parte dos serviços públicos na Argentina. As empresas exigem em média aumentos entre 30% e 40%, embora algumas tenham pedido mais de 100%, proporções que o governo Duhalde rejeita taxativamente.O secretário-geral da presidência, José Pampuro, deixou claro neste fim de semana que o governo, no máximo, autorizará um ?pequeno? aumento às empresas privatizadas. Segundo analistas, um eventual aumento vai elevar ainda mais o volume de inadimplentes com os serviços públicos.No caso da telefonia, por falta de dinheiro, 10% dos antigos clientes tiveram que abandonar o serviço desde o início deste ano. O governo Duhalde quer evitar uma disparada das tarifas, já que isso poderia causar-lhe imensos problemas internos a poucos meses de passar o poder ao novo presidente, que será eleito em março do ano que vem.Além disso, o Fundo também exige que o governo Duhalde libere totalmente os controles de câmbio. Mas, para o governo, aplicar esta medida equivaleria a caminhar por uma marquise estreita, já que, sem controles, o dólar poderia voltar a disparar. Isto causaria um novo aumento da inflação, e, na seqüência, mais uma redução do esquálido poder aquisitivo dos argentinos, o que seria o estopim de novos conflitos sociais.O governo só aceita um aumento de 10% nas tarifas. Neste fim de semana, Pampuro também explicou que a liberação das restrições no câmbio e as intervenções do Banco Central para conter o dólar são outra questão na qual o governo não pretende ceder.Mas o governo argentino não fechou as portas totalmente para essa possibilidade, já que está disposto a liberar gradualmente as restrições cambiais, no caso de que possa fechar um acordo com o FMI. O governo Duhalde está anunciando desde março que o acordo é ?iminente?.O próprio Duhalde lamentou-se publicamente várias vezes: ?Quando estamos nos aproximando da meta de chegada, o FMI puxa para longe a fita, e precisamos continuar correndo?. Na semana passada, o governo havia anunciado que o ministro da Economia, Roberto Lavagna, iria à Washington nos próximos dias para comandar pessoalmente a esperada ?reta final? das negociações com o FMI.A expectativa era positiva, já que a missão argentina havia conseguido ? pelo menos ? aparar as arestas nas questões de política monetária. Mas diante dos novos impasses, a viagem de Lavagna foi cancelada temporariamente, pela segunda vez. Com ironia, o jornal Página 12, comentou: ?Lavagna está como uma noiva ansiosa nos dias prévios ao casamento, fazendo e desfazendo as malas?.No entanto, a missão que está em Washington permanecerá ali, e, ao longo desta semana tentará avançar na discussão da política fiscal, fonte de outros pontos de conflito com o FMI. Além disso, a missão será reforçada com a chegada de novos assessores do ministério da Economia, que analisarão questões puramente técnicas com o FMI.Um dos focos principais serão os bônus emitidos pelas províncias, que são utilizados como ?moedas paralelas? para o pagamento de funcionários públicos. Quase a metade do circulante monetário atual da Argentina é composta por estas ?moedas paralelas? que o FMI abomina.O fundo quer que o governo Duhalde elimine a possibilidade de pagar impostos com essas moedas, o que removeria a maior parte de credibilidade das mesmas. No entanto, apesar dos problemas, o governo Duhalde tenta manter o otimismo. Neste domingo, o vice-chefe do gabinete de ministros, Eduardo Amadeo, sustentou que a negociação com o FMI ?está perto de sua conclusão?. Mas por via das dúvidas, acrescentou: ?Embora esta conclusão ainda não seja uma certeza??.

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