Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Qualicorp cai quase 30% e perde R$ 1,4 bilhão em valor de mercado

Movimento foi resposta a acordo de não competição que envolve pagamento de R$ 150 milhões a presidente da empresa

O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 15h54
Atualizado 02 Outubro 2018 | 15h05

Com queda de quase 30% nas ações, a Qualicorp perdeu nesta segunda-feira, 1º, R$ 1,366 bilhão em valor de mercado em função de um acordo de não competição anunciado entre a administradora de planos de saúde e seu presidente, fundador e acionista, José Seripieri Filho.

Pelo contrato, o executivo, que detém de forma indireta cerca de 15% do capital da companhia, não poderá realizar a venda de sua participação por um prazo de seis anos nem competir com empresa. Em troca, receberá R$ 150 milhões.

A empresa esclareceu que a decisão foi tomada por unanimidade por todos os membros do conselho, com exceção do acionista em questão, que não participou da reunião.

Para o presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec), Mauro Cunha, o acordo pode ser, sob o prisma das informações públicas até aqui, “o maior escândalo societário do mercado brasileiro desde o caso Oi”. “É preciso uma ação incisiva da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Ministério Público (MP) e dos acionistas”, disse Cunha ao Estadão/Broadcast.

Segundo ele, esse tipo de transação configura transferência de valor da companhia para o controlador, por meio do pagamento de um “prêmio de controle escondido”. A Qualicorp esclareceu que a empresa não possui controle ou bloco de controle, tendo capital pulverizado.

A companhia justificou o acordo com o argumento de que o “mercado de atuação da companhia está em forte transformação e o conselho de administração entendeu essencial contratar alinhamento estratégico e de longo prazo com o acionista, fundador e principal liderança da companhia”. Disse ainda que o acordo teve como referência trabalhos de consultoria contratados a pedido do conselho e prestados pelas empresas McKinsey, Spencer Stuart e Mercer.

Contrato

Segundo o acordo, Seripieri Filho está obrigado a não competir com os negócios da companhia e não solicitar qualquer cliente, fornecedor, distribuidor ou qualquer pessoa a deixar seu emprego ou deixar de prestar serviços para a Qualicorp.

O prazo de vigência da obrigação de não competição poderá ser estendido por dois anos, a qualquer tempo daqui a até cinco anos da assinatura do contrato, com pagamento de indenização adicional.

Para Cunha, da Amec, o acordo, se não punido, irá prejudicar todo o mercado de capitais brasileiro, colocando a credibilidade do mesmo em risco. Os acionistas minoritários da Qualicorp, segundo o presidente da Amec, estão “abismados”.

No caso da Oi há alguns anos, houve questionamentos e reclamação de acionistas minoritários de que a reestruturação proposta pela empresa transferiria indiretamente dívidas dos controladores para a tele.

Em nota, a Qualicorp esclarece que "a referida decisão, visando um alinhamento estratégico de médio prazo, foi tomada por unanimidade por seu Conselho de Administração, sem a participação do sr Seripieri e respeitados todos os ritos legais.”

Em relatório, o Itaú BBA disse que os termos do acordo são negativos em relação à governança, que deve ser uma crescente preocupação dos acionistas.

Mckinsey

A Mckinsey, em nota enviada por sua assessoria de imprensa nesta terça-feira, 2, rebateu as informações de teria sido consultada para a definição da indenização. A empresa destacou que "não atua em qualquer definição referente a mérito ou valor de acordos de não competição com executivos".

O posicionamento se refere à divulgação na segunda-feira, 1, pela Qualicorp, em comunicado ao mercado e durante teleconferência com analistas e investidores, de que a empresa utilizou a McKinsey e mais duas consultorias para se chegar ao valor de indenização de R$ 150 milhões, a ser pago em seis anos, ao executivo José Seripieri Filho em um acordo de não competição. / FERNANDA NUNES, RENATO CARVALHO, LUANA PAVANI E RODRIGO PETRY

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