ANTONIO MILENA/ESTADÃO
ANTONIO MILENA/ESTADÃO

Acordo do Pacífico deve isolar ainda mais o Brasil

Para especialistas, tratado de livre-comércio entre os EUA e mais 11 países acentua a necessidade de o País se integrar à economia global

O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2015 | 22h09

O Brasil se isola ainda mais na cadeia global de comércio e seus produtos devem ficar ainda menos competitivos diante da Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), avaliam analistas. De imediato, o acordo deve gerar desvios do comércio brasileiro principalmente no segmento de manufaturados, mas também do agronegócio.

No ano passado, o Brasil exportou US$ 54 bilhões para os 12 países envolvidos na TPP e importou US$ 60 bilhões. Só em manufaturados foram US$ 31 bilhões exportados - o equivalente a 35% do total de vendas externas do País - e importou US$ 47 bilhões.

“Mesmo antes de o acordo ser ratificado já haverá desvios, porque as empresas vão começar a incorporar o acerto em suas negociações”, diz o gerente executivo de Comércio Exterior da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Diego Bonomo. Ele ressalta também que, daqui em diante, qualquer negociação feita por Estados Unidos e Japão terá como referência as regras da TPP, das quais o Brasil não teve participação.

Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, “a competitividade do Brasil, que já era baixa, se torna ainda mais baixa”. Ele também vê o Brasil se isolando cada vez mais da cadeia global de valor. “Nos excluímos de tudo isso.”

Os 12 países envolvidos no novo tratado vão trocar mercadorias sem taxação de impostos e o produto brasileiro ficará ainda mais caro nessas regiões, diz Castro. O presidente da AEB lembra que, mesmo com o câmbio favorável, as exportações brasileiras não reagem. A previsão é de que o País tenha superávit de US$ 13 bilhões a US$ 14 bilhões na balança comercial, “mas será um superávit negativo, já que virá da queda das importações, e não do aumento das exportações”.

Para a economista Mônica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, com sede em Washington, o tratado representa uma mudança completa no tabuleiro das negociações comerciais e dá um sentido de urgência às discussões do setor privado brasileiro sobre a necessidade de maior integração do País à economia global. “A nova realidade mundial são os mega-acordos comerciais. Ficar de fora não é a solução, porque todos os países estão caminhando nessa direção”, disse.

Atraso. Nos últimos anos, a política comercial brasileira acabou isolada porque o País concentrou a sua estratégia de negociação com países da América do Sul e da África e apostou no destravamento da Organização Mundial do Comércio (OMC).

“A TPP também é um acordo na parte de regulação, de propriedade intelectual, por exemplo. Nesse debate, o Brasil fica um pouco para trás”, afirma Lia Valls Pereira, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Na avaliação dela, o País precisa definir uma agenda de comércio exterior, sobretudo num momento em que as economias se movimentam em busca de novos acordos. Além da TPP, os Estados Unidos, por exemplo, negociam um acordo com a União Europeia. / CLEIDE SILVA, CLÁUDIA TREVISAN E LUIZ GUILHERME GERBELLI

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