Acordo entre BHP e Rio Tinto deve favorecer a Vale

Para presidente do conselho da Vale, mineradoras ganham força para negociar reajustes

Mônica Ciarelli, O Estadao de S.Paulo

06 de junho de 2009 | 00h00

Em meio a uma das mais longas e duras negociações em torno do preço do minério de ferro, as australianas Rio Tinto e BHP Billiton fecharam uma joint venture para operar minas na Austrália. Segundo a Rio Tinto, a aliança vai resultar em sinergias de mais de US$ 10 bilhões. Para viabilizar a parceria entre as duas mineradoras em Pilbara, no Estado de Austrália Ocidental, a BHP pagará US$ 5,8 bilhões à Rio Tinto para que suas participações sejam equalizadas no negócio. O presidente da Previ (o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil) e do conselho de administração da Vale, Sérgio Rosa, acredita que a joint venture anunciada ontem diminui a possibilidade de as siderúrgicas chinesas arbitrarem preços entre seus fornecedores. Rosa lembrou que a maior preocupação da Vale era de que a Rio Tinto, que passa por dificuldades financeiras, buscasse uma negociação de preços mais agressiva para ganhar mercado nesse momento de maior retração econômica mundial."É ruim para uma negociação quando algum fornecedor vive uma situação de fragilidade que o obriga a baixar muito o preço para garantir mercado. Esse era o medo que a gente tinha da Rio Tinto. Mas acho que esse perigo está sendo afastado", diz Rosa.Para ele, a parceria entre as australianas limita a capacidade da Rio Tinto de oferecer um preço abaixo das expectativas. Terceira mineradora no ranking mundial, a Rio Tinto já fechou com as siderúrgicas Nippon Steel (japonesa) e a Posco (coreana) um corte entre 33% e 44% nos preços dos contratos de longo prazo fechados este ano. A China vem exigindo uma queda maior, na casa dos 50%. A negociação caminha para ser a mais longa e dura da história."A joint venture vai estabelecer um incomparável negócio de minério de ferro com ativos e infraestrutura de classe mundial", disse o presidente do conselho da Rio Tinto, Jan du Plessis. O negócio ainda depende de aprovação dos acionistas e de órgãos reguladores. O presidente executivo da BHP, Marius Kloppers, nega que a operação possa influenciar o rumo das negociações em torno do preço do minério de ferro. "Essa é uma joint venture de produção e não influencia em nada a dinâmica do mercado", afirmou. Mas, no mercado financeiro, o consenso entre analistas é de que a aliança dará mais poder de barganha às mineradoras. "Agora, as mineradoras recuperaram força na queda de braço", disse o analista da Modal Asset, Eduardo Roche. Neste ano, as duas australianas estão à frente nas negociações de preços - até o ano passado, era a Vale quem conduzia esse processo. Para o analista Felipe Reis, do Santander, os chineses devem continuar pleiteando maiores cortes, mas dificilmente conseguirão um corte superior a 35%. "Os chineses ficam enfraquecidos", afirmou.O cancelamento do aporte de capital da estatal chinesa Chinalco na Rio Tinto, que chegaria a US$ 19,5 bilhões, substituído por uma oferta de ações e pela parceria com a BHP, também foi visto como um fator favorável aos preços do minério, porque impede que uma empresa chinesa tenha uma participação estratégica na segunda maior produtora de minério do mundo. "A parceria da Rio Tinto com a BHP é muito melhor para o setor do que o acordo com a Chinalco, porque os chineses buscariam uma redução dos preços do minério", disse o economista Fábio Silveira, da RC Consultores.Rosa admite que, se a associação das mineradoras australianas lhes der mais poder de barganha na atual negociação, a Vale será beneficiada indiretamente. Segundo o executivo, a estratégia da Vale é buscar um preço que espelhe a melhor qualidade de seus produtos em relação aos dos rivais.O presidente do conselho da Vale ainda tem dúvidas sobre o impacto que a joint venture terá nos rumos da negociação. Apesar da crise, segundo ele, tanto a Rio Tinto quanto a BHP já vinham operando no limite de sua capacidade produtiva de minério de ferro. "Elas não têm muita capacidade de expansão", prevê. Sem a possibilidade de elevar a produção, o poder de barganha das australianas para forçar uma negociação que lhes seja mais favorável se perde. Rosa diz que a única companhia com capacidade de ampliar suas atividades hoje é a Vale, que chegou a cortar parte de sua produção de minério no final de 2008 para se ajustar ao cenário de retração econômica.

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