Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

coluna

Carolina Bartunek: ESG, o que eu tenho a ver com isso?

Acordo entre EUA e China deve reduzir exportações do agronegócio brasileiro

Diretor de promoção do agronegócio do Itamaraty diz que uma saída para o setor seria investir na ampliação do comércio com o Oriente Médio e o sudeste asiático

Entrevista com

Alexandre Peña Ghisleni, diplomata

Julia Lindner e Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 07h59

BRASÍLIA - O diretor do Departamento de Promoção do Agronegócio do Ministério das Relações Exteriores, Alexandre Peña Ghisleni, afirmou, em entrevista ao Estadão/Broadcast, que o acordo comercial entre Estados Unidos e China deve obrigar o agronegócio brasileiro a redirecionar suas exportações. Ele lembrou que a negociação entre os dois países prevê um comércio anual adicional de US$ 32 bilhões dos norte-americanos para os chineses, o que pode prejudicar as vendas brasileiras aos orientais.

Ghisleni citou a alta dependência brasileira dos chineses e avaliou que os impactos devem ser sentidos já em 2020, com uma possível queda nas vendas do agronegócio do Brasil ao seu principal parceiro comercial. Uma saída, segundo o diplomata, seria investir na ampliação do comércio com o Oriente Médio e o sudeste asiático.

Segundo o diplomata, o governo brasileiro não sabe qual a postura do novo governo da Argentina sobre o acordo entre União Europeia e Mercosul, firmado no ano passado. No entanto, ele lembrou que nenhum país do bloco sul-americano tem poder de vetar a aplicação do acordo. Em relação à saída do Reino Unido da União Europeia, marcado para ter início nesta sexta-feira, 31, Ghisleni avalia que o Brexit cria possibilidade de o Brasil ter melhor acesso ao mercado britânico. Mas salientou ser preciso aguardar o período de transição. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

Que balanço o senhor faz do primeiro ano no departamento de Promoção do Agronegócio no Itamaraty?

Não é que o Itamaraty não cuidasse do agro antes, mas havia a área de política comercial, que era o departamento econômico, e a área de promoção comercial. O que se criou agora foi a possibilidade de você ter uma unidade dedicada especificamente ao agronegócio, o que significa juntar a dimensão de política comercial com a de promoção comercial do agro, e também uma abertura para tratar de elementos que estavam fora da agenda do Itamaraty, como a questão da imagem, que a gente acompanha com muito interesse. Foi um ano de consolidação, de estruturação dessa forma de atuação do Itamaraty, em que os temas do agronegócio ganham destaque maior dentro da política externa brasileira.

Neste um ano de atuação, o que você pode apontar é basicamente uma diferença qualitativa da atuação brasileira. É pouco para você ver resultados, mas já é um passo importante para mensurar o que significou a parte do agro nos acordos que o Mercosul está negociando. Trabalhamos de forma intensa com Mercosul-União Europeia e Mercosul-EFTA (Associação Europeia de Livre-Comércio). Estamos trabalhando com Cingapura, Coreia, Canadá...

Como é lidar com assuntos tão diferentes, como a soja, que tem um mercado que pouco depende de vocês, e o melão, que depende muito?

Quando você fala em promoção comercial de produtos, a gente está aqui para ajudar, atender a demandas. Então, tem alguns setores em que a nossa contribuição é muito pontual, pois eles já têm condição de ter sua própria agenda externa, suas próprias vendas e operadores. Por exemplo, agora a Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão) está abrindo um escritório em Cingapura. A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) está abrindo escritório em Xangai (China). A nossa contribuição, para outros setores, é de lembrá-los que podem exportar.

O senhor citou a questão do Mercosul-União Europeia. O que muda para o agronegócio brasileiro nessas negociações, com o novo governo da Argentina?

A gente ainda não recebeu informação sobre qual vai ser a postura do novo governo (argentino), mas podemos ter clareza de algumas coisas. Foram estabelecidas regras para a ratificação do tratado, que ainda não foi assinado e está em processo de revisão jurídica. A União Europeia tem um procedimento interno, que ainda não está bem definido. E, no caso do Mercosul, se um dos países não ratificar o tratado, serve para os demais. Isso significa que nenhum país do bloco tem poder de veto sobre a aplicação do acordo para os demais. Na hipótese de a Argentina não se juntar, decidir não ratificar, é uma decisão da Argentina. Mas isso não vai prejudicar a continuidade das tratativas com a gente.

O presidente Jair Bolsonaro falou que o Brasil pode recuar do contencioso do açúcar iniciado no ano passado, com outros países produtores, contra a Índia. Disse que seria um gesto de amizade com a Índia, entendendo que o açúcar lá é uma questão social, e que a Índia está disposta a produzir etanol. Isso pode acontecer?

O que eu vi da declaração do presidente é que ele iria conversar com o ministro Ernesto Araújo para que ele visse se é possível. Entendo que essa decisão vai ser tomada junto com o setor privado brasileiro, o maior interessado. Dependendo da evolução das políticas públicas internas da Índia, e falo também dessa possibilidade de a Índia começar a acrescentar etanol na gasolina, muda o mercado de açúcar. Grande parte da produção do açúcar no Brasil passaria a ser destinada ao etanol para o mercado internacional, em princípio.

São dois fatores. A Índia pararia de dar o subsídio e abriria...

Canalizaria essa produção de açúcar excedente para etanol e, ainda assim, eles precisariam importar (o combustível).

E transformaria o etanol em uma commodity global, porque hoje só Brasil e Estados Unidos atuam nesse mercado.

A Índia tem consumo e a frota deles (de veículos) é duas vezes a brasileira. Ainda que o porcentual de etanol seja menor do que o que a gente utiliza aqui no Brasil, você está falando de um consumo (total) de etanol que vai ser maior do que o brasileiro. É uma mudança importante do mercado internacional. Se houver um rearranjo desses, aí você pode reconsiderar. Tornaria o contencioso talvez obsoleto. Mas, enfim, aí estou dando alguns elementos para entender o contexto. Não sei qual é o conteúdo dos diálogos em Nova Délhi a respeito desse tema.

Ainda sobre etanol, o Brasil criou tarifa e cotas em 2017 contra os Estados Unidos e as manteve em 2019. A revisão dessa questão pesa na decisão do presidente Donald Trump passar a dar suporte ao Brasil na entrada na OCDE?

Houve uma visita da ministra Tereza Cristina a Washington, após a criação da cota, e os americanos ficaram decepcionados, pois esperavam que voltasse à tarifa zero. Não era o que eles queriam, mas ficaram satisfeitos com a notícia da ampliação da cota (em 2019). Deixou de ser um tema da agenda bilateral. Acredito que, na história da adesão do Brasil à OCDE, houve oscilações da posição americana, mas acredito que a questão do etanol não tenha sido determinante.

Qual a perspectiva e em relação a acordos comerciais com Estados Unidos e Reino Unido?

O ministro Ernesto Araújo comentou a possibilidade de um acordo entre Mercosul e Estados Unidos. Acho que dessa proposta os americanos tomaram nota, mas a gente não teve nenhuma notícia de seguimento. Em relação ao Reino Unido, tem uma manifestação de interesse dos britânicos, mas, em primeiro lugar, temos de esperar que o Brexit aconteça. Eles vão ter 11 meses para negociar acordo de livre-comércio com a União Europeia. Feito isso, vão começar a se engajar mais diretamente. Ou seja, você tem a perspectiva de, a partir de 2021, ter um lançamento de negociações.

Os termos do acordo com Reino Unido poderiam ser semelhantes aos da União Europeia?

Há a possibilidade de você ter um acesso melhor ao mercado britânico, porque as pressões protecionistas que existem na União Europeia existem num grau menor dentro do Reino Unido. Você pode ter acesso melhor à carne bovina e a uma série de produtos. Os britânicos são mais partidários ao livre-comércio do que a União Europeia de uma maneira geral. Isso é uma coisa que vamos ver.

Vamos ter um teste, porque boa parte do comércio agrícola com a União Europeia é regida por cotas. E a renegociação das cotas vai ser um exercício que vamos começar a tentar fazer com o Reino Unido a partir do Brexit. Aí vamos ver a verdadeira fome deles pela realização dos frutos de comércio. Um exemplo do motivo pelo qual temos de negociar essas cotas com a União Europeia e com o Reino Unido: a maior parte é 'erga omnes', ou seja, cotas da União Europeia para todos os países de fora.

Em princípio, com a saída, o Reino Unido cria a própria cota e a União Europeia vai diminuir um pouco a cota. Mas, como elas são 'erga omnes' (ou seja, vale para todos), isso significa que o Reino Unido pode utilizar aquela cota para vender para a União Europeia e a União Europeia pode utilizar para vender ao Reino Unido. Um e outro, sozinhos, podem esgotar as cotas, o que significaria que o Brasil perderia mercado naqueles produtos. Para nós é importante resguardar o acesso aos dois até que haja acordo de livre-comércio entre eles, algo que garanta que não vamos perder esse acesso.

Quais são os produtos sensíveis do Brasil, no caso do agronegócio?

A gente está revendo proteína animal e basicamente isso que está na agenda. Mas você tem repercussões em outros produtos de diferentes maneiras, algumas difíceis de negociar, pois há o chamado ‘efeito Roterdã’. A maior parte das exportações do agro brasileiro, inclusive para o Reino Unido, chega pelo porto de Roterdã (Holanda) e segue para o Reino Unido. Com o Brexit, se for para Roterdã, vai passar por dois controles sanitários e queimar duas cotas (até chegar ao Reino Unido). Então, não é uma questão menor. E a opção seria criar uma linha de navegação que vá direto para o Reino Unido, que está preparado. Significa que vai ter fila de espera nos portos e, se você está tratando com produtos perecíveis, há a possibilidade de perda.

A China é o maior cliente do agro brasileiro e sofre com um surto de coronavírus. Dá para ter uma ideia dos impactos para o comércio?

Para o comércio ainda não atingiu. A gente vai ter de ver um pouco como evolui essa epidemia, porque já começou a afetar a circulação de pessoas. Na nossa relação com a China, a preocupação principal é saber como vai ser a administração do acordo entre os Estados Unidos e aquele país. Não está claro o que vai ser feito, como vai ser implantado o acordo. As declarações dos governantes chineses são no sentido de acalmar, dizendo que vão ser criados novos fluxos de comércio, e não desviando comércio, e que as decisões vão ser todas tomadas com base na lógica econômica, na demanda e também de forma política. A gente vai querer acompanhar porque são volumes muito importantes.

Só na área do agro, a China se comprometeu a importar US$ 32 bilhões a mais (por ano) dos Estados Unidos. Essa é uma questão que a gente está acompanhando com interesse porque vai repercutir no comércio agrícola internacional de uma maneira geral. Se os Estados Unidos forem efetivamente vender US$ 32 bilhões a mais, eles têm capacidade de produzir a mais tudo isso? Ou vão redirecionar as vendas? Se eles redirecionarem, quais são os mercados em que nós vamos poder entrar no lugar dos Estados Unidos? Você pode ter um rearranjo de relações comerciais muito grande.

Esse rearranjo pode ser bom para o Brasil, porque o País pode ampliar o destino dos produtos de agronegócio e ficar menos dependente na China.

É difícil, mas talvez até seja um efeito colateral positivo esse acordo. Veja, 86% da soja brasileira estava sendo exportada para a China. Uma área em que deveria haver expansão das exportações americanas para a China para poder chegar a US$ 32 bilhões seria a soja. E aí é tipicamente uma área em que teríamos interesse em recuperar o mercado que os americanos vão abrir. E diversificação nesse caso é uma questão muito importante. Isso também tem a ver com a abertura de novos mercados e é uma preocupação nossa. Não só a diversidade da pauta, mas dos exportadores. A preocupação do ministro Ernesto Araújo é o fato de que a nossa relação comercial esteja concentrada em alguns poucos parceiros. A China, apesar da redução de crescimento, ainda está crescendo mais de 5% ao ano. Digamos que tivesse uma recessão, o que na história econômica dos países é algo normal. Então, o que aconteceria com  o quadro brasileiro?

O sudeste asiático, com uma população gigantesca, seria um caminho?

Quando se fala em novos parceiros você vê o Oriente Médio, que se tornou muito importante na parte de proteína animal. O sudeste asiático é uma área em que temos potencial de expansão muito grande para Indonésia, Filipinas. Até para o Vietnã estamos abrindo mercado. Uma coisa que joga em nosso favor, uma das principais vantagens de se ter assinado o acordo entre Mercosul e União Europeia é ter o selo de qualidade, ou seja, quando você diz a determinado parceiro que o teu produto é aceito na União Europeia aumenta o grau de dificuldade para o outro lado dizer que não vai aceitar. Isso abre portas para a gente.

Não dá para criar barreira técnica, não tarifária, é isso?

Vai precisar de mais imaginação para criar barreiras, vai precisar de um esforço maior para fazer isso. A China vai continuar sendo um grande parceiro e é provável que continue o nosso maior parceiro. Mas, se você olhar o crescimento quase exponencial nos últimos anos, nosso cenário provável para este ano, dependendo de como for a administração desse acordo (Estados Unidos-China), vai ser, com sorte, a estagnação, mas mais provavelmente uma redução.

O presidente Bolsonaro anunciou o Conselho da Amazônia com intuito de mostrar ao mundo que o Brasil está agindo pelo meio ambiente. Na visão do senhor, qual a importância de passar essa mensagem para o agronegócio?

Essa é uma das questões mais sensíveis que existem. Lendo a imprensa internacional, o agro está destruindo a Amazônia. A gente tem tentando levar para a Europa, por meio das embaixadas e consulados, esclarecimentos de que não são os exportadores brasileiros que estão destruindo a Amazônia. Nós somos um grande exportador de açúcar, produzido na costa do Nordeste e em São Paulo. No caso do café, é produzido no Espírito Santo e sul de Minas Gerais. Sobre a carne bovina, não tem nenhum (frigorífico) habilitado a exportar nos Estados do Norte. Os únicos que estão habilitados no bioma da Amazônia são os que estão no norte de Mato Grosso e assinaram um ajustamento de conduta para não utilizar carne de área desmatada.

Ou seja, se você boicotasse esses produtos, estaria boicotando aqueles que estão lutando contra o desmatamento. O agro não tem interesse na destruição da Amazônia, mas, quando você vê os debates na Europa, as coisas são associadas de uma maneira tal que eles dizem que, para conter o desmatamento, precisa barrar as exportações brasileiras. Não tem lógica. Aí vem a pergunta: se não importarem do Brasil, de onde virá esse produto? Na Europa, alguns dizem que podem produzir localmente. Sintam-se livres para produzir localmente. No caso da soja, se forem produzir a quantidade que precisam, vão ter de utilizar território superior ao da Bélgica. Fiquem à vontade.

Fica muito evidente que, junto a questionamentos ambientais, que são legítimos, há também questões comerciais. E não são nem muito disfarçadas. O que a gente tem trabalhado, e é um trabalho muito de formiguinha, é tentar restabelecer os fatos no debate público. Nós temos problemas ambientais, mas isso não quer dizer que o agro brasileiro seja a causa. Nas nossas relações com países da União Europeia esse se tornou um tema importante e que tem repercussão em vários níveis.

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