ROBSON FERNANDJES/Estadão
ROBSON FERNANDJES/Estadão

Acordo entre Mercosul e UE fica mais longe de um desfecho

Para chanceleres do Uruguai e da Argentina, 'janela de oportunidade' para conclusão de acerto está se fechando

Julia Lindner, enviada especial, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2018 | 11h43
Atualizado 18 Junho 2018 | 13h24

O acordo do Mercosul com a União Europeia não deve ser concluído este ano, como previa o Itamaraty. É o que acreditam os chanceleres do Uruguai, Rodolfo Nin Novoa, e da Argentina, Jorge Faurie. Neste domingo, na reunião preparatória para o encontro dos presidentes do Mercosul, em Assunção, no Paraguai, Novoa defendeu que o bloco deveria "determinar prioridades reais de negociações", destacando um possível entendimento com a China. O Uruguai assume nesta segunda-feira a presidência semestral do bloco.

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"Não podemos perder as esperanças, mas sentimos que estamos próximos de presenciar uma ruptura", disse Novoa sobre o acordo com a UE. Em tom de ultimato, ele afirmou que a União Europeia precisa demonstrar "uma vontade real de concluir essa negociação". "Aprendemos que o Mercosul está em condições de definir posições negociadoras e que tem vontade de realizar acordos. Não é necessário iniciar do zero. Temos em frente várias negociações que poderiam ser finalizadas em menos de dois anos, muitos países que miram comercialmente nosso bloco. Pensemos em China", continuou o chanceler uruguaio.

Faurie concordou com o chanceler uruguaio e disse estar certo de que essa "famosa janela de oportunidade" do acordo com a União Europeia está prestes a se fechar, lembrando que as tratativas já duram mais de 20 anos. O chanceler argentino afirmou também que um possível entendimento com a China não pode ser evitado.

"Precisamos reunir os consensos que existem nesse processo para concluir o acordo, que já passa de 20 anos de negociação. A Argentina está disposta a saber o que podemos fazer, como podemos fazer, e não podemos esquecer o elefante que está dentro da sala", declarou o chanceler argentino.

Mais otimista. O ministro de Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes, foi mais otimista em relação a um possível acordo com a União Europeia ainda em 2018. "Penso que é preciso tratar esse assunto com o pessimismo da razão e otimismo da vontade", comentou brevemente em seu discurso. Em conversa com a imprensa, após a reunião, o ministro disse que "estamos próximos de um entendimento" com a UE. "Não é desarrazoado imaginarmos uma conclusão política ainda neste semestre."

Na reunião, Aloysio não mencionou a questão da China nenhuma vez. Depois, ao ser questionado sobre o assunto por jornalistas, respondeu que é "importante" a iniciativa do Uruguai de propor a retomada do diálogo do Mercosul com a China, mas ponderou que o tema ainda é "árido".

Na semana passada, deputados e senadores da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e entidades do setor produtivo cobraram do ministro de Relações Exteriores esclarecimentos sobre o andamento das negociações do acordo de livre-comércio do Mercosul com a UE.

Temer. O presidente Michel Temer afirmou, nesta segunda-feira, 18, que o Mercosul deve manter as negociações com a União Europeia pelo acordo de livre-comércio. Apesar de ter citado negociações externas, Temer não mencionou a China em nenhum momento de sua fala na reunião de cúpula do bloco.

"Acho que não devemos abandonar ideia da aliança da União Europeia com o Mercosul. Nosso trabalho há de ser cada vez mais de abertura com o mundo. Fechar esta porta significa impedir o caminho das negociações", disse Temer.

Segundo fontes, Temer decidiu dar ênfase ao assunto porque os europeus interpretaram mal a fala do chanceler do Uruguai, Rodolfo Nin Novoa, ontem, que defendeu uma negociação comercial ampla com a China. Com apoio do chanceler da Argentina, Jorge Faurie, Novoa disse que sente que as negociações com a UE estariam próximas de uma "ruptura".

A reunião do Mercosul, nesta segunda, marca justamente a transferência da presidência pro tempore do Paraguai para o Uruguai. Por isso, de acordo com aliados de Temer, houve receio de que o acordo com a UE pudesse perder intensidade nos próximos meses.

Durante a reunião de cúpula do Mercosul, na manhã desta segunda, o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, reforçou a fala do chanceler e reclamou da demora na finalização das negociações com a UE, que já duram mais de 20 anos.

Em resposta ao presidente do Uruguai, o presidente Temer afirmou que as coisas "não se resolvem de um dia para o outro, nem de um ano para o outro". "Por muito tempo, trabalhamos no acordo com a UE, mas penso que acentuamos nossas negociações apenas nos últimos anos. Não é por acaso que negociações avançaram enormemente nos últimos tempos", continuou. Temer disse ainda que o Mercosul tem por objetivo "melhorar a abertura no lugar de se fechar em si mesmo".

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