Acordo fechado em meio a fortes atritos

De estilos e ideias opostas, ministros da Grécia e da Alemanha se enfrentaram abertamente

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2015 | 02h04

Sem gravata, de camisa para fora da calça e com o último botão aberto, o ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, levantou-se ao término da reunião do Eurogrupo, ontem, e cumprimentou o ministro das Finanças da França, Michel Sapin, vestido em terno e gravata, e a elegantíssima diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde. Doutor em economia, o grego é um "maverick" - um dissidente em meio a algumas das autoridades mais poderosas da União Europeia.

De perfil atlético, informal e exótico na forma de se vestir - nessa semana ele apareceu com a gola de um blaser propositalmente levantada a uma reunião do Eurogrupo -, Varoufakis é o exato oposto do ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble. Enquanto o primeiro é um expoente da Coalizão Radical de Esquerda (Syriza), o segundo é um hiperativo - apesar de usar uma cadeira de rodas - e onipresente líder da União Cristã Democrata (CDU), o partido da chanceler Angela Merkel.

Nesta semana, os opostos entraram em profundo atrito, a ponto de ameaçar a permanência da Grécia na zona do euro. Nos bastidores de Bruxelas, surgiram relatos de que as reuniões do Eurogrupo passaram a ser marcadas pelo enfrentamento aberto entre Varoufakis e Schäuble. Enquanto o primeiro provocava, prometendo negociar até depois do último minuto, o segundo dava lições, deixando claro que não se tratava de uma partida de pôquer. O choque foi tão rude que, entre diplomatas presentes aos encontros, poucos têm dúvidas de que Schäuble prefere que a Grécia seja expulsa da zona do euro.

Ontem, em Paris, a chanceler Angela Merkel teria até mesmo demonstrado constrangimento sobre a postura de seu ministro durante uma reunião com o presidente da França, François Hollande, no Palácio do Eliseu, segundo o jornal Le Monde.

Em Atenas, o perfil desse doutor em economia da Universidade de Atenas já causava preocupações às vésperas da eleição. Um dia depois de "enfrentar" Varoufakis em um debate de televisão sobre os programas de governo de Alexis Tsipras e de Antonis Samaras - o premiê que viria a ser derrotado -, a economista Miranda Xafa, ex-membro da direção executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI), advertiu: "Ele é realmente radical, intransigente e sustenta posições que não têm base na realidade".

Na noite em que foi eleito deputado e escolhido ministro, Varoufakis falou ao Estado e, então, deixou claro que suas posições seriam duras em Bruxelas. Ele não descartava nem mesmo pedir um novo haircut - um corte na dívida - de 316 bilhões, ou 175% do PIB, uma proposta absolutamente inaceitável para a Europa.

Diante de sua postura agressiva e seu estilo provocador, não são raros os gregos que prefeririam ver o também economista Yannis Dragasakis, nomeado vice-primeiro-ministro por Alexis Tsipras, no comando das negociações e na relação com Schäuble. Considerado um moderado, Dragasakis deveria ser o negociador-chefe da Grécia, e chegou a comparecer à primeira reunião do Eurogrupo, mas acabou sendo substituído por Varoufakis.

Para observadores, essa troca de um moderado por um radical dificultou o diálogo entre Atenas e Bruxelas, e exasperou Schäuble. A irritação cresceu ainda mais com as cobranças reiteradas de indenizações relativas à 2.ª Guerra Mundial, reivindicadas por autoridades do governo grego. Não bastasse a animosidade, Schäuble foi caricaturado por veículos de imprensa como um soldado nazista, uma saia justa que aumentou a rejeição da opinião pública alemã e, por extensão, o clima de animosidade. O resultado foi a intransigência de ambos os lados, que voltou a colocar a Grécia na berlinda na sexta-feira, quando havia incerteza concreta sobre o futuro do país.

Tensão. Ainda que dramático, o acordo entre a União Europeia e a Grécia encerrou, pelo menos por ora, três semanas de tensão crescente iniciadas desde a eleição de Tsipras.

O entendimento também pôs fim à aura de radical inquebrável do primeiro-ministro da Grécia. Com um discurso antiausteridade, o líder da Syriza prometia tornar os "memorandum", como os acordos de resgate são chamados em Atenas, "coisa do passado", recuperando o orgulho perdido dos gregos ao longo de seis anos de depressão econômica.

Em um discurso ao Parlamento há dez dias, o premiê grego reiterou que não abandonaria suas promessas de campanha, e afirmou: "O senhor Schäuble e o senhor Samaras podem nos pedir de qualquer forma, mas nós não pediremos a extensão do plano de ajuda à Grécia". "Enquanto tivermos o apoio da população do nosso lado, nós não cederemos à chantagem e ninguém nos amedrontará", reiterou.

Ontem, ao aceitar o acordo com o Eurogrupo, solicitando a extensão do socorro econômico, Tsipras deixou claro à Europa e aos seus eleitores que, em política, é melhor nunca dizer nunca.

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