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Acordo isola o Brasil e abre a porta da América do Sul à China

Indústria culpa governo brasileiro por não ter financiado a Argentina,em troca de obras e de exportações brasileiras

DENISE CHRISPIM MARIN, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2015 | 02h04

O acordo Argentina-China disparou um alarme na indústria brasileira. Enquanto refaz para baixo suas projeções de exportação para o país vizinho, o setor culpa o governo brasileiro por não ter concedido financiamento especial para a Argentina, mesmo com o alto risco da operação. A omissão, para industriais brasileiros, permitiu à China isolar o Brasil e fazer da Argentina a sua porta de entrada para a América do Sul. O acordo pode ainda dar um golpe de misericórdia no Mercosul.

"Houve falha estratégica do Brasil, que fará da China o maior exportador de manufaturas para a Argentina", afirmou Klaus Curt Müller, diretor de Comércio Exterior da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). "A perda de mercado dos produtos brasileiros para os chineses na Argentina vai aumentar agora, com o acordo, em prejuízo da indústria nacional", disse Carlos Eduardo Abijaodi, diretor de Desenvolvimento Industrial da Confederação Nacional da Indústria.

O governo brasileiro preferiu não se manifestar. O Ministério do Desenvolvimento disse não conhecer os detalhes do acordo - disponível na página do Senado argentino na internet - e ser essa uma questão do Itamaraty. A diplomacia brasileira silenciou ao ser procurado pelo Estado.

Müller e Thomaz Zanotto, diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, explicaram ser esse acordo o resultado da situação financeira crítica da Argentina e da ausência de resposta do Brasil. Em 2009, o Planalto avalizou o financiamento em moeda local de US$ 3,5 bilhões à Argentina, que preservou a importação de produtos brasileiros ao país vizinho, o terceiro maior mercado do Brasil. Nos últimos dois anos, o apelo argentino ficou sem resposta de Brasília.

A China, como parte do acordo, aprovou um swap de US$ 11 bilhões para o país vizinho em setembro de 2014. Os recursos engrossam as reservas internacionais do país e serão usados em projetos de infraestrutura, entre eles duas hidrelétricas.

Para Zanotto, a "gritaria" no Brasil sobre o financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social para a renovação do Porto de Mariel, em Cuba, impediu a concessão de crédito nacional para a construção das hidrelétricas por empreiteiras brasileiras. O governo argentino tentara atrair empresas do País em dois eventos no primeiro trimestre de 2013, em São Paulo. "A principal reclamação das nossas construtoras é a falta de mecanismos de garantia de crédito para que possam competir em pé de igualdade com as chinesas."

Africanização. O acordo, segundo Müller, atende aos critérios chineses de investimento em economias vulneráveis, em troca de matérias-primas e de mercado. Trata-se do mesmo modelo adotado pela China em acordos com Angola e Nigéria. Nesses casos, a China trouxe tudo o que era necessário para levantar as obras, incluindo a mão de obra. "Em dificuldade financeira, a Argentina tornou-se a grande porta de entrada da China na América do Sul. O Brasil poderia ter evitado e, agora, tem de agir imediatamente", disse o diretor da Abimaq.

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, lamenta o fato de o governo brasileiro não ter incluído essa questão nas última reuniões do Mercosul. "Se houver isenção de impostos para a importação de produtos chineses para essas obras, o Mercosul será ferido de morte."

Um tema desconsiderado pelo bloco, segundo Abijaodi e Castro, é o deslocamento de produtos brasileiros na Argentina pelos concorrentes chineses. Dados da CNI mostram a redução de 11% nas importações totais da Argentina de janeiro a novembro de 2014 ante igual período de 2013. Do Brasil, a queda foi de 25%. Da China, 4%. O caso mais grave está no setor de máquinas e equipamentos: as compras de itens brasileiros caíram 34%, enquanto as de chineses aumentaram 14%.

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