Ricardo Beccari/EMBRAER
Ricardo Beccari/EMBRAER

Acordo na área de Defesa é recebido com surpresa

Parceria, na qual a brasileira será majoritária, envolverá estratégia comercial do cargueiro KC-390, aposta da Embraer no segmento

Fernando Nakagawa, Fernando Scheller, Lu Aiko Otta e Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

05 Julho 2018 | 23h40

Um dos elementos de surpresa no anúncio da parceria entre a Embraer e a americana Boeing, anunciado nesta quinta-feira, 05, foi a criação de uma joint venture não só para a aviação comercial – o que já era esperado –, mas também uma atuação conjunta na área comercial do setor de defesa e segurança. As duas empresas vão unir forças para a comercialização do cargueiro KC-390.

 Considerado um “supercargueiro”, com 35,2 metros de comprimento e capacidade para transportar até 23 toneladas de carga, o KC-390 é o maior avião já desenvolvido no Brasil. Mais de 50 empresas brasileiras participam do projeto, que tem ainda colaboração de Argentina, Portugal e República Checa. 

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O consenso é que existe um bom mercado global para a KC. A Força Aérea Brasileira (FAB) já pediu 28 aeronaves, no valor de US$ 7,2 bilhões, a serem entregues nos próximos 12 anos.

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A Embraer terá participação majoritária na companhia comercial a ser criada, embora o porcentual que a empresa cederá à Boeing ainda não esteja definido. A exemplo do que ocorrerá na parceria de aviação comercial, a subsidiária também ficaria livre dos efeitos da “golden share”, ação especial do governo que dá direito a veto, porque se tratará de uma subsidiária, e não da Embraer em si.

O efeito restrito da “golden share” sobre os acordos firmados com a Boeing – mesmo na área de defesa – já ficou claro para o Planalto, apurou o Estadão/Broadcast. Embora exista a avaliação de que o setor de Defesa – considerado chave para a segurança nacional – tenha sido preservado ao continuar a pertencer à Embraer, havia o entendimento de que o poder de veto poderá se esvair à medida que parcerias com a nova sócia na área comercial forem firmadas.

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Embora as preocupações resistam, o governo Temer está mantendo cautela para não passar a ideia de que vai interferir no negócio nem colocar qualquer obstáculo de viés ideológico para que os acordos com a Boeing sejam fechados.

Troca. Tanto a gigante americana quando o governo cederam ao longo das negociações que se estenderam por nove meses. Inicialmente, o interesse da Boeing era por 100% da Embraer, incluindo o segmento de Defesa, o que logo foi descartado pelo Planalto. Como o governo tinha o poder de veto nesse ponto, as conversas mudaram de rumo.

À medida que as negociações avançaram, uma ala do governo chegou a defender que a Embraer tivesse participação maior na nova empresa. Chegaram a citar até 51% dos norte-americanos e 49% dos brasileiros. A proposta não avançou, e o governo cedeu, diante da avaliação de que a venda seria o melhor para a Embraer. 

Por isso, a força-tarefa oficial passou a concentrar esforços em algumas cláusulas consideradas inegociáveis: a separação do braço de Defesa, a manutenção do poder de veto e temas como a manutenção em solo nacional da tecnologia desenvolvida no Brasil. A dúvida, agora, é se as salvaguardas obtidas serão suficientes.

Vantagens. Nesta quinta, o presidente da Embraer, Paulo Cesar de Souza e Silva, disse que a parceria relativa ao cargueiro vai explorar oportunidades por meio da rende de clientes da Boeing. O executivo afirma que a parceria poderá dar à brasileira acesso a mercados que dificilmente teria acesso. “Então, para a Embraer, isso (o acordo) é ótimo, porque vai significar mais exportação, mais empregos e mais vendas”, disse o executivo ontem, ao Estado. 

Dependendo do país que adquirir a aeronave, diz o executivo, será necessária uma certa customização do avião. “Quem vai fazer a customização será a joint venture. Mas isso já é um detalhe que faz parte de uma discussão que ainda será feita para detalhar exatamente como a joint venture vai funcionar”, destacou o executivo. 

A joint venture em defesa poderá aumentar seu escopo para englobar os caças Gripen, fabricados pela Saab, segundo analistas. A avaliação é que a americana poderia utilizar a força de sua cadeia de suprimentos para ajudar a empresa sueca e a Embraer na construção dos Gripen. 

“Se a Boeing conseguisse diminuir o preço do Gripen, ele se tornaria um produto incrível para venda”, disse Richard Aboulafia, consultor da indústria aeroespacial.

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