Adeus ano velho - e o novo?

Os brasileiros entram em 2009 com incerteza e apreensão, por desconhecerem o que os espera, a extensão dos estragos do desaquecimento econômico, quanto tempo vai durar a crise e com dúvidas quanto ao futuro: há chances de voltar à prosperidade vivida em 2008? Se não em 2009, quando? Na onda de um otimismo artificial e falso do subprime, um capítulo à parte para a Bovespa, que iniciou 2008 com 60 mil pontos, disparou como raio a 73 mil pontos no final de maio e acabou o ano murcha, aos 36 mil pontos. As empresas se animaram, multiplicaram capital, perderam mais do que ganharam em patrimônio e hoje têm a realista sensação de que os 73 mil pontos não voltam tão cedo. As previsões para a economia em 2009 divergem. Ninguém espera recessão, mas também não há nenhuma certeza de que o esfriamento econômico será morno ou gelado. O mercado financeiro fala em avanço de 2,6%, o Banco Central, em 3,2%, mas sem convicção, e o presidente Lula, em 4%, sem acreditar no que diz ("é apenas uma meta"). Ninguém sabe ao certo. É possível que uma recuperação no segundo semestre compense as perdas do primeiro e o ano termine com um crescimento surpreendente. Da mesma forma, é possível que a crise se estenda ao longo do ano e o resultado seja um desastre. Por mais que o governo tente minimizar aqui os efeitos da crise, as variáveis econômicas estão fora do Brasil: se nos EUA, na Europa e no Japão a crise ultrapassar 2009 e se estender por 2010, o efeito do prolongamento será crescentemente árduo nos países emergentes. E se a China desacelerar mais do que o esperado, muito pior. Hoje o mundo é interligado, o Muro de Berlim ruiu, a Muralha da China não passa de uma atração turística e não é mais possível viver protegido em redomas. O certo é que os brasileiros vão sentir saudades de 2008. A despedida alegre e saudável do ano se deu no final de setembro, início de outubro, com a economia crescendo a quase 7%, a arrecadação tributária batendo sucessivos recordes e os empregos com carteira assinada chegando a quase 2 milhões. Até aí só boas notícias, com destaque para duas: Com a classificação do grau de investimento, o risco Brasil caiu para 176 pontos no início de junho e os cofres do mundo se abriram para as empresas brasileiras (hoje ninguém mais lembra disso, o risco Brasil saltou para 677 pontos no final de outubro, hoje anda pela casa dos 450 pontos e nem a Petrobrás consegue crédito externo); O valor e o potencial das reservas de petróleo do pré-sal foram mais bem definidos, a expectativa de geração de riqueza crescia com o petróleo a quase US$ 150 o barril, criando disputa dentro e fora do governo pela apropriação do dinheiro das reservas (hoje a disputa arrefeceu, o governo aposentou a idéia de criar outra estatal para o pré-sal, o barril do petróleo desabou para menos de US$ 40, há dúvidas quanto à lucratividade de exploração e investimentos foram adiados). Em 2008 o governo agiu como se o paraíso da prosperidade fosse eterno e fez o que o presidente Lula aconselha os brasileiros a fazer hoje: gastou. E gastou mal, comprometendo dinheiro com despesas fixas e permanentes, que não podem ser removidas nem cortadas em épocas de vacas magras, como agora. Contratou mais de 100 mil novos funcionários, inflacionou a folha de pagamentos, nada fez para reduzir o enorme déficit da Previdência, que vai crescer com o desemprego, e fez gastos dispensáveis, como a compra da França de 5 submarinos e 50 helicópteros de uso militar, numa operação fora de hora, que poderia muito bem ter sido adiada neste momento de queda da arrecadação e abalo nas finanças públicas. Serão construídos no Brasil e vão gerar empregos, argumenta o governo. Mas empregos podem ser criados com investimentos em infra-estrutura, estes, sim, indispensáveis para impulsionar o crescimento econômico. Os poderes Judiciário, Legislativo e Executivo precisam encarar a crise como todos os brasileiros: com realismo, cortando despesas adiáveis, poupando e não comprometendo dinheiro público com gastos supérfluos e dispensáveis. É importante que assumam esse compromisso com o País, porque em 2010 há eleição para presidente, governadores, deputados e senadores, evento que leva os políticos a desperdiçar verbas públicas em obras inúteis e eleitoreiras, contratar pessoal para trabalhar nas eleições, desviar recursos para eleger aliados e contrair dívidas e prometer pagá-las depois de eleitos. Eles precisam, enfim, acordar para a crise. *Suely Caldas, jornalista, é professora de Comunicação da PUC-Rio (sucaldas@terra.com.br)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.