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Adeus às armas

A guerra cambial acabou? Quem venceu? Não faz muito tempo, o governo brasileiro atribuiu aos países ricos a culpa pela forte valorização das moedas dos países emergentes. É claro que o Ministério da Fazenda também admitia, com mal disfarçado orgulho, que o real forte comprovava também os supostos sólidos fundamentos da economia brasileira, com o que o tema ganhava uma ambiguidade muito encontradiça nos discursos oficiais. Chegamos a comemorar que a economia brasileira já era a sexta maior do mundo, algo que não teria sido possível sem o inchaço dos números que decorreu da desvalorização do dólar. Estranha guerra esta em que há tempo para celebrar as derrotas. Ou estávamos do outro lado?

Luis Eduardo Assis,

16 de setembro de 2013 | 02h14

O fato é que o mundo mudou e o dólar mudou com ele. Nem foi tanto assim. A primeira vez que a cotação bateu em R$ 2,40 foi em junho de 2001, há mais de 12 anos. Atualizado pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), esse valor seria hoje de R$ 5,20. Descontando a inflação dos nossos parceiros comerciais, ponderada pelo volume de comércio, o dólar de meados de 2001 estaria em R$ 4,02.

Também a volatilidade não é inédita. Volatilidade é uma medida de dispersão que não pode ser aferida intuitivamente. Calculada pela média móvel de 22 dias, a volatilidade do câmbio nas últimas semanas alcançou 18%, bem menos que os 29% de novembro de 2011, quando o dólar estava ainda em R$ 1,76. Ainda assim, é outro mundo.

No período da "guerra", o aumento do consumo vazou para produtos importados, barateados pela valorização cambial, impedindo que a demanda anabolizada se transformasse em mais inflação. Foi possível estimular o crédito, cuja expansão também foi facilitada pela redução do desemprego e pelo ganho no salário real. Foi bom enquanto durou. Gastávamos mais do que podíamos e o dólar barato driblava a inflação.

Daqui para a frente, tudo vai ser diferente. A única coisa que não mudou é que a culpa continua sendo dos outros, já que no recente encontro do G-20 o Brasil acusou os países ricos de manipularem o câmbio - agora para cima - e gerarem instabilidade para os países emergentes. A parte boa de um dólar mais caro é que o desequilíbrio no balanço de transações correntes tende a ser gradualmente corrigido. A indústria brasileira ganha um alento, depois de anos sendo imolada no altar do populismo cambial. Mas a desvalorização do real também pressiona a inflação, o que exige juros mais altos, que atrapalham o crescimento e seguram o dinamismo do mercado de trabalho. A variável de ajuste será o nível de emprego, o que é péssima notícia para quem se prepara para uma disputa eleitoral. Uma falsa alternativa é não elevar mais os juros. Nesse caso, a inflação vai subir e a variável de ajuste passa a ser o salário real, o que não melhora nem um pouco a situação dos candidatos oficiais.

Por que se chegou a esta escolha entre o ruim e o péssimo? Pode-se dizer que o governo foi imprevidente e se deixou seduzir pelas vantagens eleitorais da moeda forte. Ainda que verdadeira, é uma crítica impiedosa. É razoável supor que qualquer pessoa ou instituição tenda a agir em razão dos seus próprios interesses. Com o governo brasileiro não seria diferente.

Deve-se entender, um tanto cinicamente, que o objetivo de qualquer governante é ganhar a próxima eleição e isso pode não significar fazer o que, a longo prazo, é a melhor opção para o País. Cabe ao eleitor calcular o valor presente das iniciativas de longo prazo e premiar com o seu voto um governo que enxerga longe, mas a tendência natural entre nós é dar mais peso aos benefícios imediatos. Nessas condições, seria difícil esperar que o governo abrisse mão das benesses de curto prazo da valorização cambial, ainda que pudesse ter resistido à tentação de sorver até o talo as efêmeras vantagens do real valorizado. Esse foi um equívoco compreensível.

Infraestrutura. O erro crasso, porém, foi termos abandonado durante tanto tempo os investimentos em infraestrutura, algo que talvez pudesse se alinhar a uma visão ortodoxa que acredita que o mercado resolve tudo, mas que é descabida numa gestão pautada pelo intervencionismo estatal.

Estudo recente do banco Credit Suisse indica que, nos últimos dez anos, o número de passageiros em voos aéreos cresceu 170%, a venda de veículos aumentou 147%, as exportações agrícolas aumentaram 140% e o fluxo de contêineres nos portos saltou 132%. Ainda assim, os investimentos em infraestrutura, que chegaram a 5,4% do PIB na década de 1970, não passaram de 2,2% do produto na década passada, porcentual que fica abaixo até mesmo do da "década perdida" representada pelos anos 80, quando ficou em 3,6% do PIB. Em 2011, o total de investimentos em infraestrutura como porcentual do produto ficou em 2,1% no Brasil, ante 13,4% na China, 6,2% no Chile e 4,5% na Índia.

De acordo com o World Economic Forum, o Brasil ocupava, em 2012, a 107.ª colocação no ranking global de qualidade da infraestrutura, num painel que reúne 144 países. A qualidade dos aeroportos (134.ª posição) e dos portos (135.ª colocação) é destaque. Esse quadro comparativo tem piorado nos últimos anos. É fato que o governo lançou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2007. Mas esse programa contemplava apenas 20% das necessidades de investimento - e menos da metade foi efetivamente realizado.

O descaso com a infraestrutura torna as escolhas mais difíceis agora. Ao contrário do que ocorreu em outros países emergentes, deixamos de investir e temos hoje de conviver com gargalos que bloqueiam o aumento da produtividade. Cinco anos após a quebra do banco Lehman Brothers, o mundo desenvolvido lentamente sai da crise. Deveria ser uma boa notícia para nós, mas não é. A guerra cambial acabou. O governo venceu. O Brasil perdeu.

* ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DA PUC-SP E DA FGV-SP

E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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