Adeus às ilusões

Atividade empaca e mercado treme. Onde foi parar a retomada?

Cida Damasco, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2018 | 05h00

Do discurso de Temer em comemoração aos dois anos do governo a anúncios nas TVs, todos pecam no mínimo pela desatualização. Continuam insistindo na tese da volta firme do crescimento, embora os indicadores de atividade econômica no trimestre e alguns sinais de abril e maio deixem às claras que esse processo emperrou. Do lado dos mercados, a crença de alguns analistas de que o desempenho favorável devia-se à confiança dos investidores na administração da economia brasileira também vem se revelando uma ilusão – as expectativas de alta dos juros americanos deixaram para trás a estabilidade do dólar e os recordes das bolsas. 

As projeções para o crescimento do PIB no primeiro trimestre já caíram à metade, de 1% para 0,5% ou até menos, e para o ano, passaram de 3% para no máximo 2,5%. Só para dar a dimensão do que representam esses números, caso o PIB aumente de fato 2,5% em 2018, ainda assim ficará praticamente ao nível de 2012, um retrocesso de seis anos. Mais concreto ainda é o estrago que isso está produzindo no mercado de trabalho. Segundo o IBGE, 27,7 milhões de pessoas estavam, no primeiro trimestre, numa situação de desemprego ampliado, que inclui quem está desempregado e busca uma colocação, quem trabalha menos do que poderia e ainda os que não procuram emprego – o maior contingente desde o início da série histórica, em 2012. E, nesse quadro, saem-se pior os jovens que tentam entrar no mercado e encontram pela frente barreiras cada vez mais resistentes. 

Tem gente atribuindo a parada da economia neste começo de ano às incertezas eleitorais, tem quem aponte as ameaças às reformas, notadamente a da Previdência, e agora tem quem ponha a culpa na disparada do dólar. É difícil cravar uma única razão, pode ser um pouco de tudo. O fato é que ficaram comprovados o fôlego curto de uma retomada baseada em alguns estímulos específicos ao consumo, cujos efeitos se esgotaram, e os limites da política de juros, expressos na diferença de ritmo entre a queda da Selic e a das taxas do dia a dia. Também ficou explícita, nesse momento, a dominância do cenário externo no desempenho dos mercados. 

Além de produzir resultados menos efetivos do que se desejava, o ciclo de corte de juros – foram 7,75 pontos a menos em um ano e meio, até se atingir os 6,5% de agora – encerrou-se surpreendentemente na reunião do Copom da semana passada. Com isso, uma nova alta da Selic, antes esperada para o segundo semestre de 2019, já está no radar para algum momento do segundo semestre deste ano.

A decisão do Banco Central (BC) não só não amenizou como reforçou a instabilidade dos mercados. Tomando emprestado o jargão do juridiquês, o que transpareceu da última rodada do Copom foi a substituição de um BC que vinha sendo “garantista” por um “consequencialista”, o que mexeu com as apostas dos investidores. Ou seja, os integrantes do comitê, que pelos mandamentos do regime de metas deveriam mirar estritamente a inflação e a atividade econômica, teriam atuado também de olho no câmbio – diante dos temores de que se arrastem e se acentuem os tremores que sacodem os mercados dos países emergentes. Só na última semana, o dólar subiu 3,8%, e o Ibovespa caiu 2,5%. 

Mais preocupante é o fato de que, daqui para a frente, o cenário político não favorece em nada uma virada na situação da economia. O governo que sai, como de costume, está sem força suficiente para empurrar sua pauta no Congresso e para adotar medidas de maior alcance. Até porque projetos aprovados no atropelo correm o risco de serem derrubados logo à chegada do novo inquilino do Planalto. Diferentemente de outras vezes, a expectativa de troca de governo também não funciona para dar algum alento de melhora na atividade econômica, mais à frente. Ao contrário: quem se arrisca a tomar qualquer atitude “fora da curva”, como por exemplo definir novos investimentos, sem pelo menos ter alguma indicação de onde virá o futuro presidente, da esquerda, da direita ou do centro? 

A menos de cinco meses das eleições, não se sabe nem qual ou quais candidatos estarão ocupando cada uma dessas posições. Dúvidas que funcionam também para ampliar o sobe e desce dos mercados. Preparem-se, portanto, para um cenário persistente de paradeira na economia real e turbulências nos mercados. Fim das ilusões. 

*CIDA DAMASCO É JORNALISTA

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