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Adeus oba-oba do PIB?

Os dados do quarto trimestre de 2019 esfriaram as expectativas do mercado

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2020 | 04h00

dustrial de novembro, na semana passada, jogou um balde de água fria nas expectativas mais otimistas para o desempenho do PIB no quarto trimestre de 2019, mas restou a confiança de que a recuperação da economia brasileira siga incólume, puxada basicamente pelo consumo privado.

Mas a grande dúvida volta a ser a velocidade dessa recuperação. Até sair o resultado da produção industrial de novembro, era crescente o número de analistas revisando para cima suas projeções para o PIB do quarto trimestre, com impacto para o desempenho no ano inteiro de 2019 e também para 2020. Por enquanto, as estimativas de crescimento em 2019 estão próximas de 1,2%, enquanto para 2020 a expectativa é de uma expansão de 2,30%.

“Em semanas recentes, nós reconhecemos que os dados de atividade econômica sugeriam uma recuperação mais rápida e antecipada do PIB do que prevíamos na nossa projeção oficial”, afirmaram os economistas do banco JPMorgan em relatório. “Contudo, a produção industrial de novembro moderou nosso entusiasmo.”

É verdade que os economistas esperavam que o fraco desempenho da indústria em novembro refletisse um ajuste de estoques nos pátios das montadoras, fenômeno que deve ter ocorrido também em dezembro, mas que neste mês deve se dissipar.

Só que a queda da produção foi bem mais acentuada – já descontando os fatores sazonais – e generalizada em todos os setores da indústria. Em novembro, a produção industrial caiu 1,2% ante outubro, enquanto a mediana das projeções indicava uma queda de 0,50%. Foi o pior resultado desde março passado.

Nesse contexto, a divulgação do desempenho em novembro do setor de serviços, que tem um peso de 65% do PIB total, não trouxe um alívio significativo: segundo o IBGE, o volume de serviços prestados em novembro recuou 0,1% ante outubro, enquanto a mediana das estimativas apontava uma retração de 0,15%.

“Lembramos, contudo, que apenas parte da PMS (Pesquisa Mensal de Serviços, do IBGE) é utilizada por nós como indicador antecedente do PIB de serviços, e que tal seleção ajuda a explicar cerca de 24% do PIB total. Sob essa ótica, o resultado da PMS foi qualitativamente ruim, revelando queda dos serviços prestados às famílias, dos serviços de comunicação e dos de transportes”, argumentaram os economistas do banco Safra em nota aos clientes. “Tal resultado reforçou o viés negativo em nossa projeção para o PIB do quarto trimestre de 2019, atualmente em +0,7% na comparação trimestral dessazonalizada.”

O leve recuo dos serviços em novembro em relação ao mês anterior não chegou a ser uma grande surpresa, pois boa parte desse setor depende do desempenho da indústria. O mais preocupante é que os indicadores antecedentes para o mês de dezembro apontam mais um mês negativo para a indústria: a produção de veículos, de 170,5 mil unidades, recuou 25% na comparação com novembro. O fluxo de veículos pesados nas estradas com pedágio caiu de 2,3% ante novembro, após queda de 0,6% em outubro, sem ajuste sazonal. Já as vendas de papelão ondulado utilizados em embalagens caíram 0,1% ante novembro, já com ajuste sazonal.

Com base nesses dados, os analistas da MCM Consultores passaram a projetar uma queda de 1,1% na produção industrial de dezembro ante novembro.

Não à toa é grande a expectativa hoje em relação à divulgação das vendas do varejo de novembro. Os analistas esperam um desempenho forte, influenciado pela Black Friday e pela liberação de R$ 500 nas contas do FGTS. Há quem projete alta acima de 1% em novembro para as vendas do varejo restrito, que exclui automóveis e material de construção.

Mas o impulso ao consumo vindo da liberação do FGTS tem vida curta. Restarão apenas os juros baixos como motor da atividade econômica. Aliás, logo após o resultado da produção industrial em novembro cresceram as apostas para um corte adicional da taxa Selic na reunião do Copom em fevereiro. A Selic está na mínima histórica de 4,50% e os analistas esperam mais um corte de 0,25 ponto porcentual.

Conseguirá o Copom sustentar sozinho uma recuperação mais acelerada do PIB neste ano? Ou uma fraqueza mais profunda da indústria poderá contaminar o consumo e levar a mais uma frustração no PIB? Os dados do quarto trimestre de 2019 esfriaram o clima de oba-oba que chegou a tomar conta do mercado.

* COLUNISTA DO BROADCAST

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