Adeus recessão?

Com a divulgação oficial do resultado do desempenho do PIB brasileiro do 2º trimestre do ano, comparativamente ao trimestre imediatamente anterior, positivo em 1,9%, fica confirmada a saída da recessão. Isso porque tinha havido uma queda nos dois trimestres anteriores (-3,4%, no 4º trimestre de 2008, e -1%, no 1º trimestre de 2009 - dados revisados), o que, então, configurava um quadro recessivo.

, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Felizmente, a crise representa o passado para a economia brasileira, o que não quer dizer que voltamos aos níveis anteriores de crescimento, mas que a economia parou de piorar e volta gradualmente a crescer - quadro que deverá se consolidar nos próximos trimestres.

Ao longo de 2010, o País já estará crescendo, em média, num ritmo próximo de 4%. Vários fatores vão contribuir para isso. A recuperação gradual da economia internacional, assim como a relativa normalização do mercado de crédito e financiamento. No âmbito interno, a criação de empregos e um crescimento da massa salarial também devem ser fatores impulsionadores.

Comparativamente ao trimestre homólogo do ano anterior, a economia ainda apresenta queda de 1,2%. Pelo mesmo critério, os dados do desempenho negativo dos investimentos, com queda de 17%, são de fato chocantes, embora previsíveis. As empresas, diante do quadro que se delineou após a crise de setembro do ano passado, imediatamente suspenderam os investimentos. O cenário de então contemplava a queda da demanda internacional, especialmente de commodities, associada ao colapso dos preços. Além disso, os mercados de crédito e financiamento literalmente travaram, dificultando o funding para investimentos.

É, da mesma forma, previsível que o investimento responderá ao aumento da demanda. Na medida em que as empresas ocupem a sua capacidade instalada e houver, como já ocorre, alternativas de crédito e financiamento, elas retomarão os projetos de novos investimentos. Keynes nos ensinou que o que move a decisão de investir é a expectativa de crescimento sustentado da demanda. É o que desperta o que ele definiu como "espírito animal" dos empresários.

A consolidação deste cenário benigno depende de condições macroeconômicas favoráveis. É preciso manter a trajetória declinante das taxas de juros, não só as básicas, mas também - e principalmente - as dos tomadores finais. O quadro é favorável e não há qualquer pressão de inflação no mercado doméstico que justifique o contrário. Aliás, o que vai garantir que a oferta corra à frente da demanda é justamente a retomada dos investimentos para aumentar a capacidade produtiva e suprir os gargalos na infraestrutura e logística. Nesse aspecto, é interessante observar que as carências de investimentos nas áreas citadas também representam oportunidades.

Outro ponto muito importante é o câmbio. Não se deve cair na armadilha da valorização excessiva e continuada do real, porque ela denota um viés pró importação e desestimulador da exportação, algo que não interessa ao País.

O Brasil passou no teste de estresse da crise internacional e é preciso construir o pós-crise. Que a experiência nos valha para superar velhos mitos e falsos dilemas. É fundamental manter reservas cambiais elevadas, assim como contar com bancos e empresas públicas que possam atuar no contraciclo da recessão. Não fossem esses fatores e o potencial do mercado interno, a crise teria sido mais profunda e a saída, mais demorada.

As situações nos põem na condição privilegiada de sermos um forte player de produtos básicos, na agricultura, mineração e pecuária, mas sem abrir mão da industrialização, a conquista que transformou o Brasil na grande economia que é.

Na economia internacional ainda prevalecem dúvidas quanto ao ritmo e à solidez da recuperação. Até mesmo porque não houve qualquer progresso na correção dos fatores que levaram à crise. O que ocorre é a resposta positiva dada pela bem-sucedida e oportuna atuação dos bancos centrais e governos para evitar o pior. Por isso mesmo é preciso consolidar a robustez da economia brasileira e agir para garantir a autonomia das decisões de políticas econômicas domésticas, como ficou claro no auge da crise.

*Antonio Corrêa de Lacerda, professor doutor da PUC-SP, doutor em Economia pela Unicamp, é economista-chefe da Siemens e coautor, entre outros livros, de Economia Brasileira (Saraiva) E-mail: aclacerda@pucsp.br

O colunista Celso Ming está em férias.

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