Andre Dusek/Estadão
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Admirável mundo novo

Estamos prestes a viver a inusitada situação de ter como norma juros nominais e reais relativamente baixos

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S. Paulo

30 de setembro de 2019 | 05h00

Já aconteceu antes, mas desta vez pode ser diferente. Entre 2011 e 2012, o governo Dilma forçou o corte nas taxas Selic mesmo com a expectativa de inflação sistematicamente acima da meta do Banco Central. A operação voluntariosa foi um fracasso. A inflação em 12 meses passou de 4,9% em junho de 2012 para 6,6% em março de 2013, o que obrigou o Banco Central a promover um longo ciclo de 16 elevações consecutivas, que terminou apenas em julho de 2015, com a taxa básica a 14,25%. Mesmo assim, a inflação anual bateu em 10,7% em janeiro de 2016. Por que pode ser diferente agora?

A grande diferença é que desta vez a conjugação entre estagnação econômica e a ausência de choques de oferta levou a inflação para patamares extremamente baixos, ainda mais para uma economia que ainda convive (até quando?) com mecanismos de indexação.

Olhando para trás, o juro real calculado pela comparação entre a taxa Selic e o IPCA dos últimos 12 meses está em 2,9 pontos porcentuais. Isso é menos da metade dos 7,4 pontos ao ano que representam a média do juro real dos últimos 20 anos. Olhando para a frente, confrontando os juros prefixados de um ano com a expectativa de inflação do mercado para os próximos 12 meses, temos 1,4 ponto porcentual apenas. Este mesmo indicador para os últimos 20 anos registrou média de 5 pontos porcentuais.

Estamos prestes a viver a inusitada situação de ter como norma juros reais e nominais relativamente baixos. Isso muda muita coisa. Do ponto de vista do investidor, a vida será mais difícil – o que parece justo. Os juros, como se sabe, representam o pagamento pelo tempo. Com juros cronicamente elevados, era como se o tempo do brasileiro valesse mais. Para os poucos felizardos que podem poupar e adiar seu consumo, vendendo tempo, a recompensa era um ganho exagerado, o que estimulou a prática do rentismo precoce, esporte genuinamente nacional. Na outra ponta, quem não consegue poupar e quer adiantar seu consumo, comprando tempo, paga muito caro. É evidente que esta degenerescência é uma das causas da concentração de renda entre nós. Juros mais baixos atenuam essa distorção, principalmente se os bancos não se apropriarem da queda da Selic para engordarem suas margens.

Também podemos esperar uma valorização de alguns ativos, especialmente imóveis e ações. Sem opções na renda fixa, investidores terão de diversificar seu portfólio.

Do ponto de vista do governo, as mudanças também são notáveis. O governo federal pagou em juros nos 12 meses acumulados até agosto de 2019 R$ 296,7 bilhões, ajustados pela inflação. É muito, mas representa 43% menos que o recorde de R$ 521,6 bilhões pagos nos 12 meses terminados em janeiro de 2016. Em trabalho de 2018, L. C Magalhães e C. Costa (Arranjos Institucionais, Custo da Dívida Pública e Equilíbrio Fiscal, Ipea) chamam a atenção para a carga de juros, a “despesa ausente” que tem sido tratada como uma fatalidade e que comprime os gastos de custeio e, principalmente, de investimento. A queda dos juros é uma oportunidade histórica para rever o arcabouço institucional que dilui a eficácia da política monetária. Juros mais baixos também reduzem o espaço de arbitragem para grandes investidores internacionais mandarem sua grana passar férias no Brasil, o que ajudou a valorizar o real e acelerar o grave processo de desindustrialização por que passamos.

A queda de juros não cura espinhela caída nem trará seu amor de volta. Nem sequer estimulará de pronto os investimentos, como sugerem as versões simplificadas dos livros didáticos de Macroeconomia. Mas é uma boa novidade, cujas consequências positivas não devem ser subestimadas.

*ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL E PROFESSOR DE ECONOMIA DA PUC-SP E DA FGV-SP. E-MAIL: LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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