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Carolina Bartunek: ESG, o que eu tenho a ver com isso?

Admirável mundo novo das finanças

Uma imensa disputa está ganhando força dentro do G-20 envolvendo o futuro do sistema financeiro global. O resultado pode causar grande impacto no mundo - e não apenas no esotérico mundo das finanças internacionais - durante as próximas décadas. As finanças moldam o poder, as ideias e a influência. Os cínicos podem afirmar que nada vai acontecer aos princípios fundamentais do sistema econômico global, mas eles estão equivocados. É muito provável que vejamos grandes transformações nos próximos anos, possivelmente sob a forma de uma entidade ou um tratado para regulamentar o sistema financeiro internacional. De fato, é virtualmente impossível resolver os problemas atuais sem alguma espécie de bússola apontando a direção que o sistema futuro deve seguir. Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha desejam um sistema que proporcione a extensão da sua hegemonia. O secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, expôs recentemente as linhas gerais de um regime de regulamentação financeira mais conservador. Até os críticos do desregramento anterior dos EUA são obrigados a admitir que a proposta de Geithner contém algumas boas ideias. Acima de tudo, os reguladores teriam de obrigar os financistas a manter mais dinheiro em caixa para cobrir suas próprias apostas, sem depender tanto do lastro proporcionado pelo contribuinte. Apesar de o restante do mundo demonstrar simpatia diante das ideias de Geithner, outros países preferem reformas mais profundas. Rússia e China estão questionando o dólar enquanto pilar do sistema internacional. Num discurso inteligente, o presidente do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, defendeu os méritos de uma supermoeda global. Esses são os críticos mais calmos. O atual presidente do Conselho de Ministros da União Europeia, o primeiro-ministro checo, Miroslav Topolanek, expressou a atitude irritada de muitos dos líderes europeus ao descrever a abordagem devassa da América diante da política fiscal como "o caminho para o inferno". O debate acerca da reforma financeira internacional envolve imensas questões. O papel do dólar como centro do sistema financeiro global dá aos EUA a habilidade de conseguir vastas quantidades de capital sem perturbar indevidamente a sua própria economia. De fato, o ex-presidente George W. Bush cortou os impostos ao mesmo tempo em que invadiu o Iraque. Apesar de ambíguas, as medidas de Bush fizeram com que a taxa de juros sobre a dívida pública americana caísse. Numa questão mais fundamental, o papel dos EUA enquanto centro do sistema financeiro global dá aos tribunais, reguladores e políticos americanos um poder imenso sobre os investimentos em todo o mundo. É por isso que a atual disfunção no sistema financeiro americano ajudou a fomentar uma recessão global tão profunda. Por outro lado, qual é a alternativa à visão de Geithner? Existe algum outro paradigma para o sistema financeiro global? A abordagem da China representa uma imensa taxação disfarçada sobre os correntistas, que recebem apenas algumas migalhas de juros em troca dos seus depósitos. Isso permite que bancos controlados pelo Estado emprestem a firmas e setores selecionados cobrando taxas de juros subsidiadas. Na Índia, a repressão financeira é usada como meio de controlar o rumo das poupanças cativas, canalizando-as para o financiamento das imensas dívidas do governo a juros muito mais baixos do que aquelas que prevaleceriam num mercado liberalizado. Boa parte dos problemas enfrentados atualmente pela Rússia emana do mau funcionamento do seu sistema bancário. Muitos tomadores de empréstimos, incapazes de obter fundos no mercado doméstico sob termos razoáveis, foram obrigados a solicitar empréstimos em dinheiro vivo no exterior. A Europa deseja preservar o seu modelo bancário universal, o qual inclui bancos que servem a uma ampla gama de funções, desde o recebimento de depósitos até a oferta de pequenos empréstimos comerciais. Por outro lado, as propostas americanas dificultariam muito o funcionamento do modelo bancário universal, em parte porque o seu objetivo é cercar as instituições depositárias que representam um "risco sistêmico" para o sistema financeiro. Tais mudanças fariam pressão sobre os bancos universais pelo abandono das atividades mais arriscadas. É claro que gigantes americanos como o Citigroup, o Bank of America e o JP Morgan também serão afetados. Mas o modelo bancário universal é muito menos central ao sistema financeiro americano do que é na Europa e em partes da Ásia e da América Latina. Além das implicações para os diferentes sistemas nacionais, o formato futuro da atividade bancária é crítico para o sistema financeiro mais amplo, incluindo o capital de risco, o ramo de private equity e os fundos de hedge. A proposta de Geithner almeja controlar todos eles até certo ponto. O medo das crises é compreensível, mas sem essas novas e criativas abordagens das finanças, é possível que jamais tivesse surgido o Vale do Silício. Como encontrar o equilíbrio certo entre risco e criatividade? Apesar de boa parte do debate no G-20 tratar de temas como o estímulo fiscal global, o verdadeiro jogo de altas apostas envolve a escolha de uma nova filosofia para o sistema financeiro internacional e a sua regulamentação. Se nossos líderes não forem capazes de encontrar uma nova abordagem, há grandes chances de a globalização financeira engatar rapidamente uma marcha a ré, dificultando ainda mais a nossa escapatória do atoleiro atual. *Kenneth Rogoff é professor de economia na Universidade Harvard e ex-economista-chefe do FMI

Kenneth Rogoff*, O Estadao de S.Paulo

31 de março de 2009 | 00h00

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