Adote um buraco. Na Alemanha

Em crise, cidade alemã pede socorro à população e propõe que cada morador colabore com 50 para tapar um dos muitos buracos das ruas

Jamil Chade, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2010 | 00h00

No interior da Europa, longe das cúpulas de chefes de Estado, municípios descobrem o tamanho do buraco da crise. É o caso de Niederzimmern, no interior da Alemanha. Castigado pelo inverno mais rigoroso dos últimos anos, suas ruas e estradas estão esburacadas e não há verba oficial para tapar os buracos. Assim, a prefeitura fez um apelo aos moradores para que "adotem" um buraco por 50.

Com uma crise da dívida sem precedentes, as prefeituras não têm mais dinheiro para reparar estradas. O inverno rigoroso e a neve destruíram o asfalto em 40% das estradas alemãs. Com o volume de dinheiro destinado a salvar bancos e setores mais sensíveis da economia, a Europa vê a sua dívida explodir.

Na cidade dos buracos adotados, a prefeitura comemora: mais de 150 buracos já foram comprados por cidadãos em apenas duas semana. As autoridades criaram até um site em alemão e inglês para atrair doadores internacionais. Em troca da doação, a prefeitura promete que o morador poderá escolher uma mensagem para gravar no asfalto.

Mas o caso dos buracos da cidade alemã é apenas a ponta do iceberg de uma crise bem mais profunda. As prefeituras europeias estão quebradas e sofrem para cumprir suas obrigações.

Na Espanha, com a quebra do setor imobiliário e a pior taxa de desemprego na Europa, as cidades enfrentam dívidas colossais. Per capita, a maior é a de Ochánduri, em La Rioja. Segundo o jornal El País, a dívida chega a 9 mil por habitante. Em números totais, a maior é de Madri, com um rombo de 7 bilhões. A cidade viu sua dívida dobrar em apenas cinco anos. A cidade de Jerez de la Frontera anunciou corte de 550 funcionários para diminuir seu déficit. Madri reduziu gastos em 20% e Valência cortou orçamento em 4% neste ano.

Os problemas financeiros das cidades espanholas estavam sendo mascarados pelo boom imobiliário. Mais de 30% dos ingressos médios de uma cidade espanhola vinham de novos lançamentos imobiliários e da construção. Com a crise, esses recursos secaram.

Na França, a crise também atinge de forma dura as cidades. Besançon e outras 21 prefeituras estão pedindo ao governo central pagamento pelo trabalho de preparar a vacinação contra a gripe suína. Como a pandemia não provocou uma corrida às vacinas, os gastos foram em vão. Agora, endividadas, essas cidades querem uma compensação de 4 milhões.

Já a prefeitura da pequena Noailles decidiu vender seus bens, incluindo o prédio de uma escola. Senlis, também na França, tomou uma decisão radical: venderá um dos castelos da região, o de Fonds-de-l''Arche.

A crise ainda está revelando que os problemas financeiros obrigaram algumas cidades, como a rica Milão, a entrar em acordo com bancos para mascarar seus déficits. Um processo será aberto em maio.

A acusação é que os bancos UBS, JPMorgan Chase, Deutsche Bank e Hypo Real Estate ajudaram a cidade a emitir papéis no mercado de 1,7 bilhão. Em troca, chegaram a um acordo para lucrar apostando na taxa de juros. Milão agora acusa os bancos de trapacear.

Os bancos prometiam que a medida renderia ganhos de 60 milhões. Mas, como a taxa de juros despencou, a cidade amarga prejuízos.

PARA ENTENDER

O caso de Niederzimmern é exemplar da crise que abala a Europa. Segundo a União Europeia, 16 dos 27 países membros estão fora da lei, ou seja, com um déficit fiscal acima de 3% do PIB. Pelas regras do bloco, três anos consecutivos de um buraco acima do limite seria motivo para expulsão da zona do euro.

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