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Bolsonaro pressiona sindicatos de servidores ao vincular reajuste de salários à aprovação da PEC

Entidades que representam os servidores públicos têm fortes relações de influência no Congresso, sobretudo com os partidos de oposição que fecharam questão contra a PEC dos precatórios

Adriana Fernandes*, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2021 | 04h00

O Orçamento de 2022 não tem espaço para o reajuste dos servidores, mas pode ter. E não será com corte de despesas como querem fazer crer a equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes, e políticos do Congresso.

O IPCA mais alto em 2021 pode garantir mais despesas com a mudança na fórmula de cálculo do teto de gastos que está na PEC dos precatórios.

Hoje, essa licença para gastar é calculada pelo ministério em R$ 91,6 bilhões. Mesmo descontada a alta das despesas obrigatórias, que também sobem com a inflação (INPC) mais salgada, o espaço pode subir. Não se sabe quanto.

Os cálculos oficiais estão sendo feitos. Espera-se que esses novos dados sejam divulgados antes da votação da PEC no Senado, onde parlamentares querem restringir o cheque que Bolsonaro terá para assinar em 2022 e tocar seu programa de medidas eleitoreiras.

O próprio Ministério da Economia elevou as estimativas de inflação. São justamente essas projeções que servirão de base para a votação do Orçamento de 2022, quando o reajuste terá que ser decidido.

Espertamente, o presidente Jair Bolsonaro vinculou a concessão do reajuste à aprovação da PEC. Constrange e pressiona ao mesmo tempo os sindicatos de servidores, que têm fortes relações de influência no Congresso, sobretudo com os partidos de oposição que fecharam questão contra a PEC.

A promessa do presidente sinaliza ao público de servidores, principalmente àquele que realmente lhe interessa para as eleições (as forças policiais), empenhado em garantir o reajuste cobrado após dois anos de salários congelados.

Se não conseguir (o que é pouco provável), dirá que a culpa não é dele, como repetidamente tem feito nos assuntos mais delicados para os seus eleitores. É a política do “me engana que eu gosto”.

Os governadores, que tentam a reeleição ou buscam a eleição de aliados, se movimentam para dar reajustes aos servidores. O presidente não quer perder esse trem, muito menos ficar em desvantagem em relação aos adversários nos Estados, que estão com caixa cheio.

O raciocínio vale para os parlamentares que vão votar a PEC e o Orçamento. Ninguém quer ficar contra os servidores em ano eleitoral. No Congresso, aliados do presidente já falam que o reajuste pode ser dado somente para os policiais. Estratégia de divisão.

Há categorias, porém, que estão desde 2017 sem reajuste. Justamente as que ganham muito menos e que são maioria, em contraponto às carreiras de elite. Reajuste salarial e eleição sempre andam juntos no Brasil. 

* REPÓRTER ESPECIAL DE ECONOMIA EM BRASÍLIA

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