Cleia Viana/ Agência Câmara
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Votação da PEC dos precatórios escancara como modelo do 'toma lá, dá cá' está se sofisticando

Maioria dos deputados que apertaram a tecla do sim já era habitué das emendas de relator

Adriana Fernandes*, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2021 | 04h00

Quinze milhões de reais. Esse foi o preço acertado para a compra de voto para aprovação da PEC dos precatórios, que é também a PEC do calote, PEC fura-teto, PEC da reeleição e a PEC do Auxílio Centrão. Uma proeza mesmo para os padrões atuais da Câmara.

Um cruzamento básico do quadro de votação da PEC com a planilha do Ministério do Desenvolvimento Regional de controle dos repasses das emendas de relator (RP9) revela que a maioria dos deputados que apertaram a tecla do sim na madrugada de quinta-feira já era habitué das emendas de relator.

Metade dos votos favoráveis à PEC do Podemos, PSDB, PSB e PDT também partiu de deputados que já estavam listados nessa planilha como beneficiários dessas emendas, como revelou o Estadão

De lá para cá, o que aumentou foi o vício parlamentar por essas emendas, que se transformaram numa droga entorpecente, em que a ameaça de corte garante também votos.

A votação da PEC deixou o “orçamento secreto” escancarado para a sociedade desse modelo do toma lá, dá cá, que está se sofisticando.

Já não há mais negacionismo da sua existência. Fila de deputados na porta da assessoria da Presidência da Câmara se formou abertamente para a negociação das emendas. E, sem pudores, os valores das negociações foram falados em reuniões com mais de 20 parlamentares.

Esse relato publicado na reportagem de sexta-feira do Estadão mostra o quadro estarrecedor. “Colegas nossos de bancada comentaram que era esse valor, de R$ 15 milhões (para quem votasse a favor da PEC)”, afirmou o deputado Celso Maldaner (MDB-SC), que votou contra e disse não ter recebido nada.

É a casa da mãe joana, o lugar onde vale tudo e predomina a balbúrdia. A repercussão negativa dessa votação não tem precedente recente em se tratando de assunto econômico tão árido como os incluídos na PEC. Viralizou. A imagem da Câmara está destruída por completo. 

Quem já percebeu o risco de seguir adiante com esse modelo está disposto a enfrentar a guerra por mudanças nas emendas de relator que começa a ser travada na próxima semana na Comissão Mista de Orçamento (CMO).

Entre os que votaram contra e mesmo entre os que garantiram a aprovação da PEC, há um desconforto com as ameaças de retaliação disparadas pelas lideranças. É a percepção de que a falta de transparência é grave, mas pior ainda é deixar o controle desses recursos bilionários nas mãos de poucos caciques de partidos, dos presidentes da Câmara e Senado e do relator do Orçamento. É preciso coragem.

*REPÓRTER ESPECIAL DE ECONOMIA EM BRASÍLIA

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