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Adriano Pires informa o governo que desiste de assumir o comando da Petrobras

Em carta ao ministro de Minas e Energia, Pires agradece a indicação, mas diz que não poderia conciliar o cargo com as atividades de consultoria que já desempenha, atualmente, para empresas do setor

Adriana Fernandes e Eduardo Gayer, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2022 | 12h50
Atualizado 05 de abril de 2022 | 10h48

BRASÍLIA - Indicado para a Presidência da Petrobras, Adriano Pires, desistiu oficialmente de assumir o comando da empresa depois de o governo Bolsonaro receber informações de que o nome dele não passaria no “teste” de governança da empresa. Ele enviou nesta segunda-feira, 4, uma carta ao ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, em que oficializa a desistência em assumir a presidência da petroleira (leia íntegra abaixo).

No documento, Pires agradece a indicação e reafirma o "compromisso de continuar nessa luta" pelo desenvolvimento do mercado de óleo e gás. Diz que não poderia conciliar o cargo com as atividades de consultoria que já desempenha, atualmente, para empresas do setor. "Ficou claro para mim que ão poderia conciliar meu trabalho de consultor com o exercício da presidência da Petrobras", disse.

A desistência vem depois de o Estadão revelar que o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) pediu que Pires fosse impedido de assumir o cargo enquanto não houvesse uma investigação do governo (Controladoria-Geral da União e Comissão de Ética) e da Petrobras sobre a atuação dele no setor privado. Ele foi indicadopelo governo como o terceiro presidente da Petrobras. Antes do general Silva e Luna (que ainda está no cargo), o comando era de Roberto Castello Branco.

À noite, a Petrobras informou ter recebido dois ofícios do Ministério de Minas e Energia com a confirmação das desistências de Adriano Pires, para a presidência, e de Rodolfo Landim, para o conselho de administração. A estatal disse não ter recebido informações sobre a substituição dos indicados. 

Como sócio fundador do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Pires tem contratos de longo prazo com petroleiras e empresas de gás, como a Cosan. Ele teria que abrir mão dos negócios. Segundo fontes, Pires achou que daria simplesmente para passar para o filho, o que não é permitido pelas regras de governança da estatal. Com o impedimento, ele decidiu abrir mão do comando da Petrobras. Na carta ao ministro, disse que não teria como concluir esse processo em "tão pouco tempo

Com o alerta da Petrobras apontado conflito de checagem, os patrocinadores da indicação de Pires no governo foram retirando o apoio. "O cara é um conflito ambulante", resumiu uma fonte do Palácio do Planalto. Alinhado com o ministro das Minas e Bento Albuquerque, a indicação de Pires também é vista com restrições por integrantes da equipe econômica que participaram das negociações da lei do gás.  Na votação da Medida Provisória que permitiu a privatização da Eletrobras, Pires se aproximou de lideranças do Centrão, entre eles, o presidente da Câmara, Arthur Lira (Progressistas-AL), que teria pavimentado o acesso dele e de Pires ao gabinete de Bolsonaro. Hoje, Lira defendeu o nome de Pires e criticou quem viu conflito de interesse. "Tem que ser arcebispo para ser diretor da Petrobras?", ironizou. 

Em reuniões com representantes do Ministério da Economia, Pires defendeu os interesses das empresas ao patrocinar os “jabutis” (medidas estranhas ao projeto, como a exigêngica na contrataçaõ de térmicas) que foram colocados na nova legislação, o que irritou os negociadores do Ministério da Economia.  É muito lembrado com ironia artigo escrito por ele que diz tratar de um completo equívoco técnico chamar de "jabutis" as modificações feitas pelos parlamentares, porque as mudanças mais se pareciam com "corujas", que representam sabedoria, inteligência e visão.

Na época da escolha de Pires para o comando da Petrobras, o sentimento foi de perplexidade no time do ministro da Economia, Paulo Guedes. O maior conflito de interesse de Pires é a ligação com o empresário Carlos Suarez, dono de distribuidoras de gás, e Rubens Ometto, da Cosan.

Após indicação de Pires, funcionários da Petrobras comemoram a desistência  com a avaliação de que governança estava sendo suficiente para impedir nomeações que possam complicar os rumos da empresa.  Em nota, o Ministério de Minas e Energia afirmou que ainda não recebeu "nenhum comunicado oficial" da desistência.

Além de Pires, o empresário Rodolgo Landim já tinha comunicado o governo na madrugada de sábado para domingo que decidiu recusar a indicação para presidir o conselho de administração da Petrobras porque também recebeu avisos de quenão passaria no teste de governança. Landim havia sido indicado para o cargo em 28 de março, junto com o nome de Pires para a presidência da estatal. Em carta endereçada ao ministério, Landim, que também é presidente do Flamengo, afirma que, “apesar do tamanho e da importância da Petrobras para o nosso País, e da enorme honra para mim em exercer este cargo”, decidiu abrir mão da indicação e concentrar-se na administração do time.

A governança da Petrobras foi modificada após a Lava-Jato para tentar blindar a empresa de novos problemas do tipo. “A recusa de Landim e a possível preocupação de Adriano Pires em assumirem as posições para os quais foram indicados pelo controlador, o governo federal, demonstram que a governança da Petrobras após a Lava-Jato tem outro padrão de funcionamento, com exigências como o background check de possível conflito de interesses, que buscam dar mais segurança à empresa e aos seus investidores”, diz Luiz Marcatti, sócio e CEO da consultoria MESA Corporate Governance.

Segundo apurou o Estadão/Broadcast, para os investidores o que está ocorrendo nesse momento é uma "guerra" em torno da eficácia da governança. Um embate duro. O presidente Jair Bolsonaro já manifestou contrariedade publicamente e em vários momentos de não poder fazer a troca de comando da Petrobras livremente, mesmo a União sendo a acionista majoritária.  / COLABOROU AMÉLIA ALVES

Leia a carta de Adriano Pires na íntegra:

"Foi com muito orgulho, Senhor Ministro, que recebi seu convite para assumir a Presidência da Petrobras. Com mais de 30 anos de vida dedicados ao setor de Óleo e Gás, comecei a trabalhar as condições para cumprir a missão que me foi dada. Vi nessa missão a certeza de poder ajudar a Companhia e o País a enfrentar a atual conjuntura de turbulência e incerteza no cenário mundial.

Senti-me confiante porque constatei o alinhamento de visões em relação ao papel da Companhia neste momento.

Ficou claro para mim que não poderia conciliar meu trabalho de consultor com o exercício da Presidência da Petrobras. Iniciei imediatamente os procedimentos para me desligar do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), consultoria que fundei há mais de 20 anos e hoje dirijo em sociedade com meu filho. Ao longo do processo, porém, percebi que infelizmente não tenho condições de fazê-lo em tão pouco tempo.

É por isso, Senhor Ministro, que sou obrigado a declinar de tão honroso convite. Agradeço imensamente a V.Exa e ao Senhor Presidente, Jair Messias Bolsonaro, pela confiança depositada em mim, para tão importante missão, e pela deferência e respeito com que fui tratado por V.Excias e por esse Governo.

Ao longo de minha carreira, sempre lutei pelo desenvolvimento do mercado brasileiro de Óleo e Gás. Venho defendendo publicamente a importância de regras de mercado e do aumento da competição, em prol do consumidor e da sociedade, do crescimento do País e do incentivo aos investimentos.

Para concluir, reafirmo aqui o compromisso de continuar nessa luta, que é em favor do Brasil e votos de continuado sucesso na gestão do nosso Presidente Bolsonaro em favor do povo brasileiro.

Com elevado apreço,

Adriano Pires"

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