Sergei Karpukhin/Reuters
Sergei Karpukhin/Reuters

Teremos mudanças estruturais no mercado de petróleo daqui para a frente?

Grande diferença do setor é sua sensibilidade a fatores geopolíticos, como a guerra da Ucrânia, por exemplo; principal movimento que está determinando mudanças estruturais no mercado hoje é a transição energética

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2022 | 04h00

O comportamento do mercado de petróleo sempre esteve ligado, como outras commodities, à famosa lei da oferta X demanda, mas a grande diferença é a sensibilidade desse setor a fatores geopolíticos. Se olharmos a história do século 20, vamos verificar que em todas as crises geopolíticas do mundo o petróleo esteve por trás. Agora, na guerra da Ucrânia, não é diferente. Muitos achavam que o produto não era mais o preço diretor das commodities, mas a guerra mostrou esse equívoco.

O que aconteceu foi que os preços de todas as commodities cresceram acompanhando, como sempre ocorreu, o preço do barril de petróleo. Teremos mudanças estruturais no mercado de petróleo daqui para a frente? Com a guerra da Ucrânia, muda a geopolítica da energia? 

O principal movimento que está determinando mudanças estruturais no mercado do petróleo é a transição energética. Não é a primeira vez que o mundo vive este movimento. Vivemos a transição da lenha para o carvão, do carvão para o petróleo e, agora, do petróleo para as energias renováveis. O que diferencia a transição atual das demais é que, enquanto as duas primeiras foram determinadas por fatores estritamente econômicos, a atual traz a novidade do fator ambiental.

A guerra da Ucrânia traz de volta para a mesa a questão da segurança energética, que tinha sido meio esquecida. A consequência poderá ser uma redução na velocidade da transição e o grande culpado foi o açodamento em demonizar os combustíveis fósseis por parte dos movimentos ambientalistas. Portanto, a era do petróleo deverá durar mais do que alguns incautos preconizaram.

A geopolítica da energia também muda. A Rússia sai menor da guerra pelo fato de ter se transformado num fornecedor pouco ou nada confiável. Isso provocará nos países dois movimentos. O primeiro é diversificar os fornecedores nem que isso custe mais caro, já que a energia mais cara é aquela a que não temos acesso. O segundo é que não teremos mais fontes monopolistas como foram o carvão e o petróleo e, sim, iremos caminhar cada vez mais para matrizes energéticas diversificadas e regionalizadas. Cada vez mais temos de olhar os atributos de cada fonte primária de energia e parar com este Fla X Flu entre combustíveis fósseis e energias renováveis.

O Brasil, neste movimento de transição e diversidade na composição da matriz energética, está numa posição privilegiada. Já temos uma matriz muito limpa e possuímos uma grande diversidade de fontes primárias de energia. Com isso, poderemos ser grandes protagonistas na cena energética, desde que consigamos entender a complementaridade entre, por exemplo, gás natural e fontes renováveis. Caso contrário, não seremos protagonistas e continuaremos a flertar com apagões, racionamentos e energia cara. 

*DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.