Paulo Whitaker/Reuters - 01/07/2017
Paulo Whitaker/Reuters - 01/07/2017

Transição energética perde espaço para a segurança energética e alimentar

Mudanças surgem como consequências da pandemia de covid-19 e da guerra na Ucrânia; Brasil precisa entender a sua vantagem comparativa como grande produtor de energia e de alimentos

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2022 | 04h00

Em tempos de eleição, o País precisa olhar e refletir sobre o novo mapa geopolítico da energia e as mudanças que trazem novos paradigmas de política energética, que virão como consequência da pandemia e da guerra da Ucrânia. Esse novo momento poderia ser traduzido pela seguinte frase: perde espaço na discussão a transição e entram a segurança energética e a alimentar. Nesse sentido, o Brasil precisa entender a sua vantagem comparativa como grande produtor de energia e de alimentos.

Para tanto, deveríamos elaborar uma política para substituição do diesel tanto pelo gás natural como pelo biometano e o biodiesel. Temos um pré-sal caipira de biogás. Para que isso ocorra é fundamental adotar medidas como a criação de corredores azuis, semelhantes aos que existem na Europa, onde só circulam caminhões movidos a gás fóssil e gás verde. Ao invés de falar de carros elétricos, temos de usar nossa vantagem comparativa e estimular o consumo de biocombustíveis.

Como grandes produtores de petróleo, deveríamos construir um programa de subsídios permanentes que seria acionado por meio de um trigger, ou gatilho, usando recursos do Tesouro. O correto seria socializar os lucros da Petrobras e as receitas do setor de óleo e gás. Não é justo essas receitas irem na sua integralidade para o Tesouro.

Ainda no campo dos combustíveis, temos de discutir três pontos que trarão preços mais competitivos e atração de investimentos. O primeiro são os impostos. Não podemos tributar combustível como se fossem produtos supérfluos. Segundo, é preciso reduzir a nossa ineficiência logística com a construção de dutos e, terceiro, promover o aumento da concorrência acelerando a privatização das refinarias.

No setor de energia elétrica, a discussão deveria ser centrada em como construir uma matriz diversificada que nos deixasse menos refém da natureza e nos trouxesse mais confiabilidade e custos mais baixos, levando energia de qualidade para todo o País, afastando apagões e racionamentos. Todas as energias possuem atributos. Muitos não têm essa compressão e pensam que a energia gerada com gás natural compete com as fontes renováveis e outros são míopes e não enxergam a importância de interiorizar o uso do gás, chegando a regiões como o Centro-Oeste e beneficiando o agronegócio.

O fato é que as termoelétricas promovem a redução de custos com o seu despacho na base, reduzindo as incertezas para a operação com a nova matriz renovável. Isso aumenta o controle sobre a água nos reservatórios, liberando as hidrelétricas para realizarem o balanço sistêmico elétrico, para atenderem à intermitência das renováveis e fazerem outros usos da água, principalmente irrigação e saneamento, preservando as nossas bacias hidrográficas.  

*DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE INFRAESTRUTURA (CBIE)

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