CBIE
Adriano Pires, presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) CBIE

Adriano Pires disse que Brasil deveria torcer por petróleo a US$ 200; leia bastidor

Novo presidente da Petrobras tem argumentos vão na linha oposta do que defende a equipe de Guedes; Pires é a favor de usar dividendos da estatal para criar um fundo de estabilização que proteja o mercado doméstico de grandes flutuações internacionais

Célia Froufe, Marlla Sabino e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 20h27

BRASÍLIA e RIO - Personagem há muito conhecido no setor de energia e que sempre orbitou em torno da Petrobras, Adriano Pires foi confirmado nesta segunda-feira, 28, como indicação do presidente Jair Bolsonaro para ser o novo presidente da estatal, substituindo Joaquim Silva e Luna. O presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), e articulista do Estadão, já foi sondado outras vezes para cargos de menor escalão na Petrobras e também teve seu nome entre os apontados para chefiar o Ministério de Minas e Energia (MME) já no atual governo.

De fala fácil e muito contundente, é difícil imaginar como será o trabalho de Pires dentro da estatal, depois que dois presidentes já deixaram o cargo após a insatisfação notória de Bolsonaro em relação à política de preços da empresa. Não só porque Pires já criticou diversas vezes as tentativas de mudar essa política, chamando-as de populistas, mas, principalmente, porque seus argumentos vão na linha oposta do que defende a equipe econômica liderada por Paulo Guedes

Pires, por exemplo, se diz favorável ao uso de dividendos da Petrobras para criar um fundo de estabilização que proteja o mercado doméstico de períodos de grandes flutuações dos preços internacionais - como no momento, em função da invasão da Ucrânia pela Rússia. Ele já defendeu também a possibilidade de se conceder subsídios em períodos de crise, instrumento que a equipe econômica praticamente em coro refuta, alegando que se tratariam de benefícios para a classe média e média alta do País, quando são os mais pobres os mais necessitados.

Ainda sobre o mercado internacional, Pires já chegou a defender que o preço do barril fosse cotado no dobro do nível atual, em torno de US$ 100. "A gente deveria torcer para o petróleo ir a U$ 200 porque o petróleo passou a ser uma grande fonte de arrecadação para o Brasil", argumentou o presidente do CBIE há um mês, durante uma live realizada pela FPE Debate.

Pelo raciocínio exposto pelo agora novo presidente da Petrobras, o Brasil estaria agora "no mesmo time" da Arábia Saudita, um grande produtor e que fez sua riqueza por meio do petróleo. A saída para minimizar para o consumidor os impactos diretos nos preços da gasolina e do botijão de gás, segundo ele, seria separar parte desse aumento de receitas. "Aí a gente teria que pegar o dinheiro dessa arrecadação e fazer política pública para enfrentar esses momentos que são muito momentâneos e são períodos de excepcionalidade."

Formado em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro nos anos 1980, Pires tem mestrado em planejamento energético e doutorado em Economia Industrial pela Université de Paris. Nos anos 1990, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, foi superintendente na recém-criada Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). No ano 2000, criou com sócios o CBIE, especializado em consultoria do setor de petróleo e gás natural.

Com mais de 40 anos de experiência no setor de energia, Pires teve uma forte atuação na criação de um mercado livre de gás natural no Brasil e sempre foi favorável ao mercado livre de energia, o que leva a crer que dificilmente o economista acabaria com a política de paridade de preços de importação (PPI), alvo das maiores críticas de Bolsonaro.

Segundo a Ativa Investimentos, o nome de Pires agrada o mercado justamente por este perfil técnico, e que não romperia com as transformações operacionais e financeiras que vêm sendo executadas na companhia desde a metade da década passada.

"Embora a decisão seja igual à tomada um ano atrás, quando o Executivo decidiu não reconduzir Castello Branco e indicar o general Silva e Luna à presidência da Petrobras, os desdobramentos do fato para as ações de hoje se deram de forma bem mais contidos. Isto acontece pela hora pela qual a notícia foi divulgada e pelo mercado já trabalhar há semanas com a possibilidade da mudança ser executada", disse o analista da Ativa Ilan Arbetman.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Bolsonaro demite Silva e Luna do comando da Petrobras e indica Adriano Pires para presidência

Para a presidência do conselho de administração da estatal, o governo Bolsonaro indicou Rodolfo Landim, que também é presidente do Flamengo; os nomes precisam do aval da assembleia de acionistas, que está marcada para 13 de abril

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2022 | 17h29
Atualizado 29 de março de 2022 | 09h20

BRASÍLIA - O presidente Jair Bolsonaro decidiu demitir Joaquim Silva e Luna da presidência da Petrobras. Sob fritura há semanas desde a explosão de preços dos combustíveis com a guerra na Ucrânia, o general da reserva do Exército, estava há apenas um ano no cargo. Será substituído  pelo diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires.

A escolha de Pires foi interpretada com uma sinalização pró-mercado financeiro, cujos investidores cobram a manutenção da política de reajuste de preços da Petrobras, que segue a tendência dos preços do mercado internacional.

O nome foi costurado pelo próprio ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que trabalha pela adoção de um subsídio temporário do governo para diminuir a alta de preços dos combustíveis, considerada o "calcanhar de Aquiles" do presidente Jair Bolsonaro nas eleições deste ano. Com a entrada de Pires, a proposta de subsídio, que é rejeitada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, deve ganhar fôlego.

O presidente Bolsonaro tem sido apontado como culpado pela população pelos altos preços e gasolina e ensaiou um movimento, após a disparada de preços do petróleo, de intervenção de preços da Petrobras. Por isso, ainda há desconfiança de que Bolsonaro vá continuar pressionando.

Segundo apurou o Estadão, a diretoria atual da empresa gosta das posições de Pires. A transição deve ser suave. Nesse primeiro momento, a expectativa é que não haja tantas mudanças como ocorreu, no ano passado, na troca de Roberto Castello Branco por Silva e Luna. A leitura inicial é de que ele vai continuar com a política de preços de paridade internacional e que o presidente com a troca “fez mais um showzinho para o eleitorado” com os ataques à ação da estatal de olho nas eleições.

O presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, que foi indicado para a presidência do conselho administrativo da empresa, era também cotado, mas foi preterido por resistências ao seu nome. Landim era visto por integrantes da empresa da indústria de óleo e gás como alguém que estaria disposto a “fazer tudo”, inclusive aceitar uma intervenção do governo nos preços, como defende integrantes do governo nos bastidores. 

Pires, que também é articulista do Estadão, tem defendido o subsídio e se manifestado contrário ao projeto 1474, que trata de preços de combustíveis e prevê fundo de amortização dos preços, já votado no Senado e em tramitação agora na Câmara. Mas permanece certo ceticismo de que ele conseguirá segurar a pressão do presidente para intervir nos preços em ano eleitoral .

A confirmação da saída de Silva e Luna, que já era dada como certa há pelo menos 10 dias em Brasília, como mostrou o Estadão no dia 17 de março, coincidiu com a decisão tomada no mesmo dia em que o ministro da Educação, Milton Ribeiro, entregou o cargo ao presidente.

Ribeiro é investigado por suspeita de envolvimento com pastores que cobravam propina para intermediar recursos para escolas, como revelou o Estadão. Essa tentativa de tirar o foco de uma notícia negativa é uma estratégia já usada pelo presidente Bolsonaro em outros momentos de pressão ao longo dos mais de três anos de mandato na Presidência.

Os nomes de Pires e Landim precisam ser aprovados pela assembleia de acionistas no dia 13 de abril. O mandato do atual presidente da Petrobras vai até março de 2023, mas isso não impede a substituição. Com a queda, Luna e Silva deve deixar de ganhar um salário anual em torno de R$ 2,9 milhões (R$ 223 mil por mês), segundo dados do Ministério da Economia. De acordo com as regras atuais, o presidente da estatal pode receber até 13 salários de bônus caso todas as metas sejam atingidas.

O desconforto do presidente com a alta de preços e a falta de ação atribuída à Petrobras pavimentou a queda de Silva Luna. O general da reserva do Exército foi alçado à presidência da Petrobras em abril do ano passado no lugar de Roberto Castello Branco com a expectativa de aliados de que faria mudanças na política de preços.

Bolsonaro se irritou com com Silva e Luna pelo 'timing' no anúncio do mega-aumento dos combustíveis neste mês. A Petrobras pratica a chamada paridade de preços, ou seja, paga pelo produto o preço cobrado no mercado internacional e, por isso, repassa eventuais altas para refinarias, o que leva ao aumento de preços para o consumidor final.

Na quinta-feira, 10, diante do aumento na cotação do petróleo no mercado internacional, reflexo da guerra na Ucrânia, a Petrobras anunciou reajuste de 18,8% para a gasolina e de 24,9% para o diesel.

No dia seguinte, o Congresso aprovou e Bolsonaro sancionou um projeto que faz alterações na tributação sobre os combustíveis para tentar aliviar a alta de preços. Para Bolsonaro, o impacto da aprovação do projeto foi "mitigado" porque a Petrobras fez o anúncio do mega-aumento antes.

"Olha só, eu tenho uma política de não interferir. Sabemos das obrigações legais da Petrobras e, para mim, particularmente falando, é um lucro absurdo que a Petrobras tem num momento atípico no mundo. Então, não é uma questão apenas interna nossa", disse Bolsonaro, no sábado. "Então, falar que eu estou satisfeito com o reajuste? Não estou satisfeito com o reajuste, mas não vou interferir no mercado", completou o presidente.

Se confirmada pelo conselho, esta será a segunda vez que Bolsonaro muda o comando da Petrobras. Em fevereiro do ano passado, o presidente demitiu Roberto Castello Branco, também em um momento em que o preço dos combustíveis impactava sua popularidade.

Cronologia

  • 8 de janeiro - Em entrevista ao Estadão, Silva e Luna disse que os preços dos combustíveis não podem ser gerenciados pelo governo. “O que regula o preço é o mercado”, afirmou. “Ainda há pessoas que consideram, por desinformação ou outro motivo, que a Petrobras deva ser responsável pela redução de preço. Ela não tem condições de fazer isso.”
  • 3 de fevereiro - Em evento da a Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis (Abicom), Silva e Luna afirmou que a estatal precisava praticar preços de mercado e se comportar como uma empresa privada, até porque não conseguia atender todo o mercado brasileiro de combustíveis com suas refinarias, que operam com ociosidade de cerca de 20%.
  • 7 de março - Com os preços do combustíveis já defasados no mercado interno, Bolsonaro defendeu rever política de preços da Petrobra. "Se repassar tudo, aumento será de 50%", disse afirmou o presidente em entrevista à Rádio Folha de Roraima. Ações da estatal caem 7% no mesmo dia.
  • 10 de março - A Petrobras anuncia um aumento no preço da gasolina em 18,8% e do gás de cozinha em 16,1%; diesel sobe 24,9%, o que aumenta ainda mais o desgaste de Luna e Silva.
  • 15 de março - Descontente, Bolsonaro era aconselhado pelos principais ministros a manter Silva e Luna à frente da Petrobras para não fazer uma troca "sem efeito algum". Dias antes, o vice-presidente, Hamilton Mourão, com quem Bolsonaro mantém hoje uma relação distante, disse que Silva e Luna "aguentaria a pressão" e ficaria no cargo.
  • 16 de março -  Bolsonaro diz que soube com antecedência de megarreajuste de preços, o que contraria as diretrizes da empresa e sua relação com o mercado.
  • 17 de março -  O presidente começa a procurar nomes para substituir Silva e Luna, mas trata de despistar. “Não posso nem vou interferir na Petrobras. No governo do PT, muita coisa errada foi feita na Petrobras”, afirmou o presidente durante o lançamento do Programa Renda e Oportunidade.
  • 21 de março - Em entrevista à Jovem Pan, presidente negou interferência na Petrobras. No mesmo dia,  Bolsonaro abandonou uma entrevista coletiva improvisada em frente ao Palácio da Alvorada ao ser questionado se pretende trocar o comando da empresa.
  • 28 de março - Bolsonaro decide demitir Silva e Luna.

     

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.