AEB reduz previsão para saldo comercial

Projeção para superávit no ano caiu de US$ 7,2 bilhões para US$ 635 milhões

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2014 | 02h04

O enfraquecimento da atividade econômica no Brasil, a crise na Argentina e o menor número de operações contábeis envolvendo plataformas de petróleo vão derrubar exportações e importações, com a balança comercial brasileira caminhando para encerrar o ano no zero a zero, segundo projeções da Associação de Comércio exterior do Brasil (AEB). Em revisão divulgada ontem, a entidade agora prevê superávit de apenas US$ 635 milhões, queda de 75,2% em relação aos US$ 2,558 bilhões de 2013. Mas um déficit não é descartado.

A estimativa inicial da AEB, informada no fim de 2013, era de superávit de US$ 7,223 bilhões este ano. A nova projeção é ainda mais pessimista que a média do mercado financeiro. Na última edição do Boletim Focus, coleta de estimativas feita pelo Banco Central (BC), a média para a balança comercial deste ano está em um superávit de US$ 2 bilhões.

Para o presidente da AEB, José Augusto Castro, mesmo com superávit, o quadro é negativo. "O superávit, em geral, é resultado do aumento das exportações, mas elas estão caindo", disse. A entidade prevê queda tanto nas exportações (5,8%, para US$ 228,2 bilhões) quanto nas importações (5%, para US$ 227,6 bilhões). "A situação só não é pior porque o desaquecimento da economia faz as importações caírem. E não é por causa do câmbio. É falta de demanda mesmo", completou.

A perspectiva é de queda na compra de todos os tipos de produtos do exterior. Mais preocupante, porém, é o recuo projetado de 7,2% para a importação de bens de capital, para US$ 47,9 bilhões. De acordo com Castro, apenas no mês passado houve queda de 17,7% nas importações de máquinas e equipamentos, em termos de valor e frente a igual mês do ano passado.

"A queda nas importações não é positiva. Principalmente porque é concentrada em bens de capital, demonstrando queda na atividade industrial e nos investimentos", afirmou Welber Barral, sócio da consultoria Barral M Jorge. Sua projeção é de superávit entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões neste ano.

Segundo Castro, o principal impacto na revisão da projeção foi das exportações "fictas" de plataformas de petróleo. Nesse caso, as plataformas são exportadas apenas por questões contábeis: a Petrobrás venda as unidades e depois as aluga, beneficiando-se de isenção tributária.

Ano passado, houve uma concentração, com sete operações do tipo, o que inflou as exportações. Este ano, deverá haver duas, somando US$ 2,5 bilhões. O problema, completou Castro, é a dificuldade em estimar a quantidade de operações por ano, por falta de informações.

No entanto, do ponto de vista do comércio exterior, a crise da Argentina é mais grave. "Ali, é um mercado mesmo", disse Castro. O risco é, com a escassez de dólares no país vizinho, as empresas brasileiras deixarem de exportar por causa de atrasos nos pagamentos.

Milho. O efeito da demanda argentina bate diretamente nas exportações de manufaturados. A nova projeção da AEB aponta para recuo de 13,8% em relação a 2013, para US$ 80,2 bilhões. Assim, o Brasil fica ainda mais dependente da exportação de matérias-primas, com projeção de ligeira alta de 0,4%, para US$ 113,5 bilhões.

Um terceiro fator a puxar para baixo a projeção da AEB foram as exportações de milho. Segundo Castro, ano passado foram exportadas 26 milhões toneladas, quando o preço médio estava em US$ 250,00 a tonelada. Este ano, a projeção é vender ao exterior 16 milhões de toneladas, a US$ 200, na esteira da supersafra americana.

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