AES só espera BNDES para comprar ativos

Presidente do grupo para a América Latina diz que companhia já tem os recursos garantidos para comprar fatia do banco na holding Brasiliana

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

A americana AES diz esperar somente a movimentação do BNDES para comprar a parcela de 49,9% que a instituição tem do capital votante da Brasiliana, que controla os principais negócios da companhia no Brasil - a distribuidora AES Eletropaulo e a geradora AES Tietê. O presidente da AES para América Latina e África, Andrew Vesey, afirmou que a empresa está "pronta para agir" à primeira palavra do banco.

Segundo o executivo, o valor a ser pago, levando em consideração o valor de mercado, estaria hoje próximo de US$ 1,8 bilhão, sem contar eventual ágio. Ele ressaltou, entretanto, que a venda "é uma decisão do banco". "Buscamos uma relação saudável e produtiva com o BNDES."

Segundo Ricardo Corrêa, analista de energia da Ativa Corretora, a AES tem disponibilidade financeira e de crédito para comprar a fatia do BNDES na Brasiliana, negócio no qual teria a preferência de aceitar ou recusar a primeira oferta. "A AES vê os ativos brasileiros como estratégicos para que ela mantenha sua relevância internacional", explicou Corrêa. Conforme Vesey, a operação brasileira responde hoje por um terço do negócio da AES, proporção que deve ser mantida nos próximos cinco anos.

O analista disse também ser "natural" que o banco venda os ativos na Brasiliana, uma vez que energia não é o seu negócio fim - mas não arrisca um prazo para que isso ocorra. Em contraposição, o governo está interessado em aumentar sua participação na infraestrutura nacional. Por isso, explicou Corrêa, não se pode descartar que o Estado pague caro e aceite um retorno baixo sobre o investimento para atingir este objetivo.

China. A entrada de investidores chineses na AES, com a compra de 15% do capital da empresa, em negócio de quase US$ 1,6 bilhão, não afetou as estratégias para o Brasil, segundo o executivo para a América Latina. "A única obrigação que temos com a CIC (China Investment Corp.) é garantir a rentabilidade." Ele ressalvou, porém, que a associação garante acesso a equipamentos baratos fabricados na China e também pode dar margem à criação de parcerias entre a AES e a CIC para investimentos.

Para atingir as metas traçadas para o Brasil nos próximos cinco anos - dobrar o número de consumidores e a capacidade de geração de energia -, Vesey diz que a AES terá de fazer aquisições, especialmente na área de distribuição. Para a geração, a alternativa mais viável é o desenvolvimento de projetos próprios.

Em relação às distribuidoras, Vesey não comentou diretamente o já declarado interesse da empresa na Elektro, que atende 200 municípios em São Paulo. Mas afirmou que as companhias que ofereçam sinergias e estejam em "áreas contínuas" à da Eletropaulo garantem "boas oportunidades". "Qualidade e localização são importantes. A partir daí, as pessoas podem tirar as próprias conclusões."

O executivo disse ainda que a chance de venda dos negócios da AES no Brasil "é zero". Recentemente, circulou no mercado a notícia de que a Brasiliana estaria no radar da Odebrecht e da Camargo Corrêa. "Não estamos à venda", afirmou Vesey.

PARA LEMBRAR

Dívida fez AES sair da Cemig

Em 2003, o BNDES assumiu uma dívida de US$ 1,2 bilhão da AES. O pagamento veio na forma da criação da Brasiliana, espécie de holding que controla os negócios da AES no País, da qual o banco ficou com quase metade da participação (a companhia americana tem o controle, com 50% mais uma ação). A AES deixou de pagar outro débito com o BNDES, referente a um empréstimo tomado em 1997 para compra de 33% da Cemig. Acabou acionada pelo banco na Justiça. No início deste ano, foi anunciado um acordo com a Andrade Gutierrez Concessões, que incorporou a dívida, corrigida a R$ 2,1 bilhões, retendo a fatia da AES na Cemig.

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