Afeganistão, terras raras e a China de olho nelas
Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Afeganistão, terras raras e a China de olho nelas

Com uma reserva de terras raras estimada em 1,4 milhão de toneladas, o Afeganistão despertou interesse geopolítico na China, que pode aumentar ainda mais o domínio na produção e processamento desses minerais com a aproximação

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 20h06

O Afeganistão é um dos países mais pobres do mundo. Em 2020, seu PIB per capita não passou de US$ 508 por ano. Mas é rico em minérios estratégicos ainda quase nada explorados. Entre estes estão as chamadas terras raras. Com a derrota dos Estados Unidos na guerra contra o Taleban, a China cobiça essas jazidas hoje avaliadas em cerca de US$ 1 trilhão.

Têm essa designação 17 materiais cada vez mais exigidos na economia de descarbonização e geração de energia renovável. Entre eles estão o escândio, o ítrio, lantânio, cério e neodímio. São essenciais na produção de veículos elétricos e componentes, semicondutores, smartphones, placas fotovoltaicas, cabos de fibra óptica, sistemas de GPS, turbinas eólicas e, também, para o setor de defesa (mísseis, aeronaves, satélites, drones).

Embora não sejam materiais escassos, recebem essa designação porque são difíceis de ser encontrados em concentrações tais que permitam extrações como produto principal. A demanda por esses minerais deve aumentar 35% até 2025, conforme apontam estudos da consultoria alemã Statista.

Essa condição deixa o xadrez geopolítico mais sujeito a disputas comerciais ou a choques por eventuais embargos na oferta, como já aconteceu com o petróleo na década de 1970.

“Esses elementos são fundamentais para os equipamentos responsáveis pelo processo de transição energética e têm propriedades específicas que dificultam sua substituição por outros. O índice de reciclagem de alguns deles é muito baixo”, observa Alexandre Szklo, professor de Planejamento Energético da Coppe/UFRJ.

A movimentação geopolítica em relação aos minerais mais críticos orbitará em torno de quatro grandes questões. A primeira envolve a existência de jazidas. O Brasil, terceiro país mais importante em reservas, pode vir a ter papel relevante nesse mercado, caso avance em regulações e fortaleça a indústria de mineração. Hoje, contribui com apenas 0,42% da produção mundial.


A segunda e terceira questões correspondem à capacidade de extração e de processamento desses minerais. É nesse campo que a China se destaca, pois praticamente monopoliza a cadeia global de processamento, quase 90% da capacidade global.

A quarta questão gira em torno dos riscos sistêmicos que envolvem as cadeias globais de valor. A crescente dependência desses minerais tende a tornar sua oferta e sua reposição mais altamente vulneráveis à escassez e à alta de preços.

Cerca de 85% da produção está concentrada em três países: Estados Unidos, Mianmar e China, esta última principal fornecedora do mundo, responsável por 60% da produção. Detém reservas estimadas em 44 milhões de toneladas.

Como aponta Carlos Crêspo, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco, esse domínio da China aumenta seu protagonismo global. E pode dificultar o desenvolvimento da indústria de defesa de outros países. A China já foi alvo da Organização Mundial do Comércio por restringir as exportações desses materiais por razões políticas.

"Não estamos mais em um cenário geopolítico analógico e se um país só controla a grande oferta de materiais que vão permitir o desenvolvimento de altas tecnologias, os países vão ter que ceder às moedas de trocas impostas, porque é uma relação de dependência que está se constituindo. E é um fenômeno que tende a piorar pois a China, principalmente na África e na América Latina, está aumentado sua presença no entorno estratégico dos países dessas regiões”, diz Crespo. /COM PABLO SANTANA

>> CONFIRA

>A inflação dispara


Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), que é o mesmo medidor de inflação que o IPCA, com a diferença de que calcula o período de 30 dias que começa a cada dia 15, apontou avanço de 0,89% em agosto, acima do esperado. 

A pergunta que fica: se o Banco Central avisou que os juros básicos (Selic) terão de ficar acima do nível de neutralidade para ancorar as expectativas, passou a ser mais provável que seja obrigado a puxar os juros em 1,25 ponto porcentual ao ano, em vez de ficar com alta de apenas 1 ponto.

CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA* 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.