STEFANI REYNOLDS/BLOOMBERG
STEFANI REYNOLDS/BLOOMBERG
Imagem Affonso Celso Pastore
Colunista
Affonso Celso Pastore
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Temos de nos preparar para mais uma queda no crescimento mundial

Tudo seria mais simples se não vivêssemos uma inflação mundial, que vem sendo combatida simultaneamente por todos os países

Affonso Celso Pastore, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2022 | 04h00

Com a inflação medida pelo CPI ultrapassando 8% ao ano, na última quarta-feira os diretores do Fed decidiram elevar a taxa dos fed funds em 0,75 ponto porcentual. O objetivo é levar a política monetária gradualmente para o território restritivo, controlando a inflação ao custo de uma recessão em 2023 ou 2024.

Alertas sobre uma recessão nos EUA têm sido emitidos por Larry Summers, William Dudley e James Bullard. Todos insistem que o controle de uma inflação provocada pelo superaquecimento da economia, e que é apenas reforçada por choques de oferta, torna praticamente inevitável uma recessão. Evidências do superaquecimento estão no mercado de trabalho, com o número de vagas abertas excedendo de muito a oferta de emprego, e com os salários em elevação. 

O Fed terá de aumentar a taxa dos fed funds acima da soma da taxa real neutra de juros e das taxas de inflação esperadas um e dois anos à frente. Na prática, ao final de 2022 a taxa dos fed funds deverá situar-se próxima de 3%, continuando a crescer em 2023. O aumento das taxas das treasuries já reflete essa previsão. 

Tudo seria mais simples se não vivêssemos uma inflação mundial, que vem sendo combatida simultaneamente por todos os países. Como as sanções impostas pelos EUA à Rússia estão longe de validar a previsão “catastrófica” de que o dólar deixaria de ser uma moeda reserva, a política monetária dos EUA continua afetando as de todos os demais países. O aumento dos juros fortalece o dólar, ou seja, deprecia as moedas de todos os demais países em relação ao dólar, elevando suas inflações. Assim, para que tenham sucesso esses países terão de adotar políticas monetárias ainda mais restritivas, contribuindo para a desaceleração do crescimento mundial. 

Uma dificuldade maior é a da Europa. Embora não haja sinais de superaquecimento, o BCE não poderá evitar um aumento da taxa de juros e a redução de seu balanço, mas esbarra na restrição imposta pelas dívidas elevadas de países como Itália e Espanha, cujos spreads vêm crescendo. Por isso terá de estabilizar essas cotações, evitando uma crise de dívida soberana, como em 2011. A guerra Rússia-Ucrânia desacelera economias que estão distantes da exuberância da norte-americana, permitindo uma normalização monetária menos intensa, mas não evita a redução de seu crescimento. 

Neste cenário teremos de nos preparar para mais uma queda do crescimento mundial, com recessões em muitos países e um inevitável aumento dos riscos. 

EX-PRESIDENTE DO BC E SÓCIO DA A.C. PASTORE E ASSOCIADOS 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.