Afinal, como Dilma vai tirar o Brasil do marasmo?

Afinal, como Dilma vai tirar o Brasil do marasmo?

Se o surto de interferência microeconômica e o déficit de prudência monetária e fiscal não são obra de Mantega, e sim ditados de cima, um ministro mais favorável aos negócios não vai ajudar muito

Economist.com

17 de novembro de 2014 | 16h03

No encontro com outros chefes deEstado do G-20 em Brisbane, na Austrália, no último final de semana, Dilma Roussef, reeleita no mêspassado para um segundo mandato de quatro anos como presidente do Brasil, teve pouco do que se gabar além da (apertada) vitória nas urnas. 

Cada dia parecetrazer mais evidências da bagunça que ela deixou para si mesma. Dados oficiaisdivulgados nas três semanas mais recentes apontam para um déficit orçamentáriocada vez maior, queda na produção industrial e aumento da pobreza. 

Até o mercadode trabalho, que até recentemente era fonte constante de boas notícias, com odesemprego próximo da mínimo histórico de 5%, começa a dar sinais de fraqueza.Na semana passada, os números mostraram uma perda líquida de 30 mil postos detrabalho em outubro, o pior resultado para o mês desde 1999, frustrando aexpectativa do mercado, que esperava a criação de 56 mil empregos.

Dias antes teve início uma disputa envolvendouma lei enviada ao congresso que, na prática, permitiria a Dilma transformar emdéficit um excedente fiscal primário (antes do pagamento de juros) de 1,9% doPIB prometido no orçamento de 2014. 

Como o balanço primário mostrou um buracoequivalente a 0,5% do PIB nos nove primeiros meses do ano (por causa do excessode gastos antes da eleição), o governo estava simplesmente reconhecendo arealidade. A oposição aproveitou a oportunidade para acusar Dilma deincontinência fiscal e retenção dos dados. Alguns ameaçaram contestar essamanobra orçamentária na suprema corte.

Se isso não bastasse, no dia 14 de novembro apolícia federal reuniu dúzias de suspeitos envolvidos numa investigação decorrupção dentro da Petrobrás, a gigante estatal do petróleo, implicando oPartido dos Trabalhadores (PT, de Dilma) e outros partidos da sua coalizão.Estavam entre eles um ex-diretor da Petrobrás, bem como os executivos de váriasgrandes empresas de construção donas de contratos avaliados em R$ 56 bilhões dereais (US$ 21,5 bilhões) com ela; R$ 720 milhões de reais em ativos foramcongelados.

A apreensão dos suspeitos ocorreu um dia após aPetrobrás ter dito que, em decorrência da investigação, adiaria em um mês adivulgação de seus resultados para o trimestre, esperados para a manhã seguinte(na semana passada veio à tona que as autoridades americanas também estão analisandoo caso porque algumas ações da Petrobras são negociadas em Nova York).

Comoseria de se esperar, o mercado de ações despencou; o diretor da bolsa de valores, Edemir Pinto,declarou abertamente temer que o escândalo prejudicasse a reputação da bolsa devalores brasileira. O dólar chegou ao valor mais alto em nove anos diante doreal.

Com manchetes como essas não surpreende que osanalistas, depois de terem cortado para quase zero as projeções de crescimentopara 2014, estão ocupados revisando para baixo as projeções para o anoseguinte. 

Arthur Carvalho, do banco Morgan Stanley, espera agora uma contraçãode 0,3% na produção em 2015; um mês atrás, ele calculava que a produção teriaaumento da mesma ordem. 

Para preservar sua celebrada classificação de crédito,o governo terá que reduzir os gastos para produzir um excedente primário depelo menos 1% do PIB, diz ele. Se acrescentarmos uma política monetária deaperto (para conter a inflação de 6,5%) e o desânimo entre os empresários, ficadifícil enxergar de onde o crescimento poderia vir, diz ele.

Entre as 20 maiores economias do mundorepresentadas em Brisbane, apenas Itália e Argentina têm crescimento econômicoinferior ao brasileiro este ano. De acordo com o Morgan Stanley, no anoseguinte apenas a Rússia terá crescimento abaixo do brasileiro. 

Muitas dasmaiores empresas brasileiras divulgaram os dados do seu rendimento trimestralessa semana, incluindo a mineradora Vale, e a siderúrgica Gerdau disse queficaria abaixo de sua meta de investimento esse ano conforme se prepara parauma queda na demanda. Executivos se queixam da incerteza e das políticaseconômicas erráticas.

A presidente está recebendo queixas até mesmo deseus aliados. Essa semana, Gilberto Carvalho, que comanda o gabinete de Dilma(mas também pode estar de saída), disse que o governo “fez pouco para atender”às demandas sociais, como a reforma agrária e os direitos indígenas. 

Numa cartade renúncia, uma das cinco que a presidente recebeu essa semana, a ministra dacultura, filiada ao PT, implorou a ela que escolhesse uma equipe econômica“comprometida com uma nova pauta de estabilidade e crescimento para o país”,além de “restaurar a confiança e a credibilidade”.

Não ajuda a decisão de Dilma de não revelar quemestará nessa - dúvida que pode permaneceraté dezembro. Muitos acreditam que qualquer nome seria melhor do que o de GuidoMantega, atual ministro das finanças, já de saída. 

Mas os céticos apontam que osurto de interferência microeconômica e o déficit da prudência monetária efiscal que caracterizaram os quatro anos mais recentes não foram obra deMantega; teriam sido ditados de cima. Se assim for, nem um ministro maisfavorável aos negócios  poderia garantir mudanças genuínas. Levando-se emconsideração o caminho acidentado pela frente, não está claro por que alguémdesejaria esse cargo.

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Da Economist.com, traduzido por Augusto Calil, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado no site www.economist.com

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