Afinal, juros de um dígito

Afinal, juros de um dígito

O corte dos juros básicos para os 9,25% ao ano já estava nas expectativas gerais

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2017 | 21h00

Os juros continuam, sim, muito altos no Brasil, mas não dá para negar o efeito vertigem. Caíram para um dígito, de 14,25% ao ano para 9,25% (veja gráfico). Um tombo de cinco pontos porcentuais em apenas nove meses não é pouca coisa.

E será ainda maior. A levar em conta as projeções do mercado captadas pela Pesquisa Focus, do Banco Central, fecharão este ano nos 8%. Mas já há quem projete juros ainda mais baixos.

O corte desta quarta-feira (26), de 1 ponto porcentual, para esses 9,25% ao ano já estava nas expectativas gerais. Não era o movimento previsto na última reunião do Copom há cerca de 50 dias. No comunicado de 31 de maio e na ata que veio seis dias depois, o Banco Central passou o sinal de que a tesourada seguinte (a desta quarta-feira) seria de 0,75 ponto porcentual. Mas o que nem o Banco Central nem ninguém previra foi o recuo ainda maior da inflação, para a casa dos 3% em 12 meses.

A primeira das duas novas ameaças a uma queda ainda mais forte da inflação foi a decisão do governo de aumentar a carga tributária sobre os combustíveis e a segunda, a perspectiva de aumento das tarifas de energia elétrica pela utilização da bandeira vermelha, em consequência da queda de nível dos reservatórios. Mas se a inflação do ano ficar nos 3,3% projetados pelo mercado, uma Selic a 8% proporcionaria juros reais ainda altos demais, superiores a 4,5%, não muito inferiores aos tempos em que a Selic estava a 14,25%.

No comunicado da reunião do Copom nesta quarta-feira, o Banco Central mencionou o agravamento de algumas incertezas para manter cautela para os passos seguintes...

É, em princípio, uma atitude correta e esperada porque um banco central não pode prestar-se a invenções, como no tempo do governo Dilma. Além dos desdobramentos da crise política, a grande ameaça não só à inflação, mas, também, ao relativo equilíbrio da economia, é, outra vez, o mau comportamento das contas públicas. A dívida pública bruta dispara para os 80% do PIB e daí sabe-se lá pra que altura. A boiada não estourou por três razões: porque há setores da economia se comportando muito bem, como a própria inflação, as contas externas e o câmbio relativamente estável; porque no resto do mundo não há sinais de alarme; e porque há muito dinheiro rolando no mercado internacional.

No entanto, os juros poderiam ser mais baixos por outra razão: a política monetária (política de juros) é agora bem mais eficaz. Primeiramente, porque conquistou credibilidade. A condução dos juros tem correspondência com os diagnósticos e os sinais emitidos por meio dos documentos oficiais e das manifestações da diretoria do Banco Central. Isso significa que os agentes econômicos estão mais propensos do que antes a acatar as advertências das autoridades monetárias. Ninguém mais fala em dominância fiscal, situação em que a política de juros perde eficácia diante da deterioração das contas públicas.

E, também, porque a inflação bem mais baixa, como a de hoje, responde mais facilmente do que a inflação alta ao fole do Banco Central, o que injeta e retira dinheiro do mercado para garantir o preço combinado do dinheiro (juros).

CONFIRA:

» É rombo ainda maior

O resultado das contas do governo central (não estão Estados e municípios) até junho é um rombo de 2,8% do PIB, no acumulado em 12 meses. O compromisso, o mesmo da PEC do Teto de Gastos, que define um déficit de R$ 139 bilhões, é de um rombo de 2,1% do PIB, incluídos Estados e municípios. Isso significa que a meta ainda está longe. Além da quebra de arrecadação, que continua forte, esse resultado reflete também a antecipação do pagamento de precatórios, os pagamentos determinados pela Justiça.

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