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Afinal, um critério

Foram necessários dez anos de populismo tarifário, de dilapidação do caixa e da capacidade de investimento da Petrobrás e de enganação sistemática da opinião pública para que, finalmente, o governo admitisse a necessidade de adotar um critério de preços para os derivados do petróleo.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2013 | 02h07

As indicações são de que será montada uma espécie de gatilho que reajustará automaticamente os preços dos derivados, tanto para cima como para baixo, quando a diferença entre os nacionais e internacionais atingirem determinada magnitude, digamos de 5%. Não foram divulgados pormenores da fórmula a ser adotada. Em princípio, deverá considerar dois parâmetros, os mesmos que hoje são usados para calcular a diferença: os preços internacionais do petróleo (e/ou derivados) e a evolução das cotações do dólar em reais no câmbio interno (veja o gráfico no Confira).

Também não está claro como se corrigirá a diferença atual, que pode ser de 5% a 20%, para a gasolina e para o diesel, dependendo de como se faz essa conta. A novidade deverá ser aprovada na reunião do Conselho de Administração da Petrobrás, no dia 22 de novembro.

O rombo na Petrobrás foi definido pela política do governo do PT adotada até agora, que usou o caixa da estatal para subsidiar os combustíveis, de modo a reduzir seu impacto sobre a inflação. O resultado foi o aumento do endividamento bruto, de R$ 115,9 bilhões em dezembro de 2011 para R$ 250,9 bilhões em setembro de 2013, num período em que a Petrobrás mais precisa de recursos. Ontem, seu diretor Financeiro e de Relações com Investidores, Almir Barbassa, admitiu que a Petrobrás ultrapassou a capacidade admitida de se endividar (alavancagem). Dia 3, quando festejava 60 anos de vida, suas promissórias tiveram a qualidade rebaixada pela Moody's, uma das mais importantes agências de classificação de risco.

As alegações dos governos Lula e Dilma para a manutenção dessa política dilapidadora eram de que a Petrobrás não trabalhava obsessivamente com cada oscilação dos preços; olhava para o longo prazo, embora nunca se soubesse de quanto fosse esse prazo nem os critérios dos reajustes. O achatamento dos preços da Petrobrás cumpriu a função de combater a inflação que a política fiscal (receitas e despesas do governo) e a política monetária (política dos juros) não vinham cumprindo.

O erro dessa política não está propriamente em ter produzido os resultados medíocres da empresa. Mas em trombar com outra política do governo, a de exigir dela cada vez mais investimentos. Outro efeito negativo foi a predação sistemática do setor do etanol, um dos mais promissores na área de energia renovável, que teve crescente dificuldade de competir com a gasolina subsidiada.

Em 2010, a Petrobrás foi beneficiada com a maior capitalização de uma empresa em todos os tempos para que pudesse dar conta do seu programa de negócios. Agora, está precisando de novo reforço de capital, mas para isso não conta com o apoio dos acionistas privados, que também se sentiram passados para trás (acima a evolução das cotações das ações da Petrobrás, desde janeiro).

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