ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO
ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO

Agência ligada a ONU critica Bolsonaro e sai em defesa do IBGE

Diretor da OIT diz estar 'preocupado' com o 'futuro das estatísticas oficiais no Brasil'; presidente eleito afirmou que método de calcular desemprego no Brasil é uma 'farsa' e que precisa ser alterado

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2018 | 11h37

GENEBRA - A Organização Internaiconal do Trabalho (OIT) saiu em defesa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) diante da fala do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), desqualificando a produção de dados de desemprego no País. Um dos diretores da entidade ainda iniciou contatos tanto com o FMI e com a OCDE para alertar para uma eventual manobra por parte do futuro governo brasileiro e pedir vigilância.

Bolsonaro chamou de "farsa" os números atuais, divulgados mensalmente pelo órgão, vinculado ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e fundado em 1934.

Em entrevista ao Estado, Rafael Diez de Medina, chefe de estatísticas e diretor do Departamento de Estatísticas da OIT, não escondeu que considera a declaração de Bolsonaro de “perigosa”. 

“Toda declaração de um pessoa que vai ocupar um cargo tão alto, e que de uma maneira bastante agressiva questiona uma definição internacional, de alguma maneira me faz pensar que existe um certo perigo sobre o que poderia ocorrer no futuro se existe uma discrepância técnico na qual os dados não são o que politicamente se queira”, disse Medina. “Há sempre uma tentação autoritária e é isso efetivamente que sempre se teme”, afirmou.

“A ingerência (sobre os dados) é contra o cidadão”, alertou o representante. 

Para Medina, o que preocupa é uma eventual erosão da independência das estatísticas diante do poder público. “A intromissão do sistema político é um perigo”, insistiu. “Uma das primícias é a independência das estatísticas e autonomia com o objetivo de evitar a interferência política nessa elaboração. E isso implica seguir os padrões internacionais”, defendeu. 

Medina relata como a Argentina foi um exemplo a não se seguir. “A administração anterior a atual manipulou os dados e o sistema internacional reagiu, condenando”, disse, numa referência ao governo de Cristina Kirchner. De acordo com ele, o FMI chegou a colocar como condição a volta da independência das estatísticas e chegou a ameaçar expulsar a Argentina da entidade pela falsificação de dados.

Segundo ele, porém, os dados vão muito além de um produto doméstico, já que afetam as bolsas, agências de classificação de risco e o sistema financeiro.

Não por acaso, numa mensagem publicada nas redes sociais, Medina, saiu em apoio ao órgão brasileiro. “A OIT apoia fortemente a metodologia seguida pelo IBGE para estimar o emprego e o desemprego, seguindo padrões internacionais”, escreveu o representante. 

Em uma outra mensagem, ele vai além e aponta que está “extremamente preocupado sobre o futuro das estatísticas oficiais no Brasil”. “O sistema internacional de estatísticas estará em alerta e pronto para reagir a esses tipos de reações na Era Pós Verdade”, criticou.

'O que está aí é uma farsa', disse Bolsonaro

Na segunda-feira, 5, em entrevista à Band, Bolsonaro disse que pretende mudar a forma como se calcula oficialmente o número de desempregados. "Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil. O que está aí é uma farsa", afirmou, sem citar especificamente o IBGE, mas respondendo a uma pergunta sobre os últimos dados do instituto referentes à contínua queda do desemprego.

"Quem recebe Bolsa Família é tido como empregado, quem não procura emprego há mais de um ano é tido como empregado, quem recebe seguro-desemprego é tido como empregado. Temos que ter uma taxa não de desempregados, e sim de empregados. Não tem dificuldade para ter isso aí e mostrar a realidade para o Brasil", declarou.

Medina rebate isso. “A metodologia é o produto de um processo muito longo”, indicou. Segundo ele, os trabalhos começaram em 1923 e ao longo dos anos foram desenvolvidos. A ultima revisão internacional ocorreu em 2013. 

Segundo ele, um país sempre pode iniciar um processo de diálogo para avaliar a forma pela qual coleta e informação. “Mas não é que qualquer país possa, por que queira, dar-se ao luxo de modificar. Precisa haver um diálogo”, apontou. 

“Alterar as leis e definições implica um processo longo e técnico e a definição de desemprego é muito estrita e bem precisada”, completou.

Medina ainda lembrou que manipular dados é um delito. Mas ele acredita que ninguém queira neste momento entrar por esse caminho.

Funcionários constrangidos

Entre os funcionários do IBGE, a fala de Bolsonaro causou constrangimento. A Associação de Servidores do IBGE insistiu, em nota, que "o IBGE segue padrões metodológicos internacionais em suas pesquisas, com a finalidade de que as estatísticas brasileiras sejam comparáveis às dos demais países do mundo”.

"O IBGE é reconhecido nacional e internacionalmente pela qualidade do seu quadro técnico e pela credibilidade das suas informações" e que "dentre os princípios que regem seu funcionamento estão a independência política e a autonomia técnica na definição de suas metodologias". 

A nota diz ainda que "a intervenção política em órgãos oficiais de estatísticas já se mostrou desastrosa para a credibilidade de instituições de pesquisa, como ocorreu recentemente na Argentina" e que "o corpo técnico do IBGE nunca foi fechado à contribuição da sociedade brasileira para o aperfeiçoamento das suas pesquisas; a própria implementação da PNAD Contínua foi resultado de discussões no âmbito do Fórum do Sistema Integrado de Pesquisas Domiciliares (SPID), que remontam a 2006".

A ASSIBGE destaca que "a metodologia das pesquisas não depende da vontade de qualquer governo, pois somos um órgão de Estado, a serviço da sociedade brasileira" e aproveita para pedir urgência na realização de concurso público. "Nossa missão é 'retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento de sua realidade e ao exercício da cidadania'. Continuaremos a fazê-lo com a dedicação de sempre, mesmo que isso não agrade aos governantes. Os políticos passam, a credibilidade do IBGE fica!", termina a nota.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.