Agências de classificação são influenciadas por empresas de Wall Street, diz senador dos EUA

Segundo Carl Levin, as agências recebem dinheiro por avaliações de risco de crédito

Clarissa Mangueira, da Agência Estado,

23 de abril de 2010 | 13h46

O presidente do Subcomitê Permanente de Investigações do Senado, Carl Levin, disse, em uma audiência, que as agências de classificação de risco de crédito têm sido influenciadas por empresas de Wall Street na suas avaliações, "e elas fizeram isso por dinheiro".

As agências de rating são pagas por empresas de Wall Street para avaliar seus produtos, o que influencia no seu julgamento, afirmou o senador democrata. "É como se uma das partes envolvidos em um julgamento pagasse o salário do juiz", disse Levin na audiência sobre o assunto.

Novos documentos da investigação do Subcomitê mostram a tensa relação entre as empresas de rating e companhias como o Goldman Sachs, à medida que elas estruturaram operações de risco como a que foi citada nas recentes acusações de fraude feitas pela Securities and Exchange Commission (SEC, a CVM dos EUA) contra o banco de investimentos.

O Subcomitê vai realizar uma audiência na próxima semana focada unicamente nas acusações contra o Goldman Sachs.

O comitê investigativo presidido por Levin disse que as agências de rating não usam modelos adequados para avaliar os produtos financeiros que foram baseados em dívidas hipotecárias. Uma vez que os modelos são ajustados para refletir a volatilidade dos valores mobiliários, as empresas de rating não reavaliam suas classificações, ressaltou o comitê.

Os massivos rebaixamentos de ativos relacionados a hipotecas pela Standard & Poors e pela Moody's em julho de 2007 "surpreenderam os mercados" e fizeram com que o mercado secundário subprime evaporasse de repente, destacou Levin.

Durante a audiência desta sexta-feira, o CEO da Moody's, Raymond McDaniel, afirmou que a agência "não está, certamente, satisfeita com o desempenho de nossas avaliações durante a recessão sem precedentes do mercado nos últimos dois anos."

"Nós, como muitos outros, não previmos a confluência sem precedentes das forças que impulsionaram o desempenho excepcionalmente pobre das hipotecas subprime nos últimos dois anos," destacou McDaniel em um depoimento por escrito.

A ex-presidente da S&P Kathleen Corbet, que deixou a empresa em setembro de 2007, disse que um princípio fundamental da S&P em suas análises "vem do exercício do julgamento analítico independente, livre de pressões interna e externa indevidas".

O Subcomitê do Senado investigou as avaliações da S&P e da Moody's ao longo da crise financeira durante um ano e meio. Os membros do comitê encontraram informações em e-mails e outros documentos que mostram a dificuldade que os analistas de crédito enfrentam quando são solicitados para avaliar os produtos hipotecários.

Segundo reportagem publicada pelo Wall Street Journal, e-mails enviados recentemente e outras comunicações internas mostram os banqueiros do Goldman brigando com os analistas da Standard & Poor's e da Moody's sobre o processo de avaliação de dívidas hipotecárias.

Os documentos, que foram divulgados antes da audiência no Senado, incluem uma série de acordos sobre obrigações de dívida colateralizadas (CDOs), denominadas Abacus 2007-AC1, que levaram a Securities and Exchange Commission (SEC, a CVM dos EUA) a acusar o Goldman e um de seus diretores de enganarem os investidores.

"Estou recebendo uma série de ofensas graves do Goldman em um negócio que eles querem colocar no mercado hoje", observa um analista da Moody's em um e-mail enviado em abril de 2006. O analista estava sendo pressionado pelo Goldman a conceder avaliações mais favoráveis do que a agência tinha oferecido. Em outro e-mail, enviado em maio do mesmo ano, um analista da S&P falou abertamente sobre um problema no acordo sobre o Abacus, embora não possa ser determinado qual seria esse problema. "Era uma falha conhecida não somente em um negócio com o Abacus, em particular, mas em praticamente todas as transações relacionadas ao CDO"

Os críticos das agências de rating dizem que suas avaliações ajudaram a contribuir para uma bolha no mercado imobiliário e para a crise financeira que se seguiu, dando a títulos hipotecários instáveis seus maiores ratings de crédito. As informações são da Dow Jones.

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