Paulo Whitaker/Reuters - 13/3/2018
Paulo Whitaker/Reuters - 13/3/2018

‘Agenda de reformas já não é uma pauta de uma só pessoa, mas de todo o País’

Presidente do Bradesco acredita que o pior para a economia talvez já tenha passado e se diz otimista com o País

Entrevista com

Octavio de Lazari Junior, presidente do Bradesco

Ricardo Leopoldo, correspondente, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2018 | 04h00

NOVA YORK - O presidente do Bradesco, Octavio de Lazari Junior, diz estar otimista com as perspectivas do Brasil como não ficava “há uma década”. Segundo ele, passadas as eleições, há uma grande perspectiva de o País alcançar reformas importantes, como a da Previdência e a simplificação tributária, o que levaria à retomada do caminho para um crescimento mais sólido. O executivo diz que tem percorrido o Brasil todo e já tem visto muitos empresários tirando projetos que estavam parados na gaveta.

Lazari diz não ter dúvidas de que o Congresso vai aprovar a reforma da Previdência no próximo ano, uma vez que os novos parlamentares sabem da importância disso para o País voltar a crescer. Segundo ele, se o País conseguir convencer os investidores estrangeiros de que é seguro investir aqui, o capital estrangeiro está pronto para vir para cá. O executivo concedeu a seguinte entrevista ao Estadão/Broadcast:

O Brasil acabou de sair de uma eleição extremamente polarizada, com a vitória do candidato que era mais bem visto pelo mercado financeiro. O que podemos esperar do governo Bolsonaro?

Apesar de as eleições terem sido polarizadas, a vontade popular se estabeleceu. Temos agora de trabalhar juntos, independente do candidato escolhido, para implementar o que queremos para o País. Essa agenda, quando falamos de reforma da Previdência, disciplina fiscal, simplificação tributária e independência do Banco Central, já não é uma pauta de uma pessoa, mas do Brasil e do povo, para que o País possa entrar num caminho de crescimento. Estou otimista com as perspectivas do Brasil para os próximos anos como não ocorria há uma década.

Há aparentemente uma onda de otimismo após as eleições, com instituições projetando crescimento maior do PIB e empresários anunciando investimentos. O que o sr. acha que vai acontecer com a economia brasileira?

Talvez o pior já tenha passado. Vemos uma expansão positiva no crédito para grandes empresas, algumas empresas já procurando captar recursos, seja no mercado de capitais, seja nas linhas tradicionais de banco para fazer investimentos, melhorando o nível de emprego. A expectativa de todos está muito positiva. Tenho viajado o Brasil inteiro. O que eu posso observar de todos os empresários com quem conversei é uma expectativa muito grande de investimentos, pois eles estavam na gaveta, e hoje já vemos muitas empresas, como as da construção civil, da indústria pesada, de vários segmentos, tirando esses projetos da gaveta.

E o que seria necessário agora para esses investimentos realmente saírem da gaveta?

Tudo é confiança de que o empresário vai poder produzir, confiança de quem vai comprar. Não existe só um fator. A expectativa de uma reforma da Previdência, simplificação fiscal, BC independente, para que tenhamos a condução da política econômica de forma contundente, isso tudo gera um clima de maior confiança das pessoas. Com as pessoas confiantes, a roda da economia, da prosperidade se movimenta.

Não há riscos a esse otimismo? O presidente eleito enviou algumas mensagens não tão favoráveis ao mercado, ao atacar parceiros comerciais importantes, como a Argentina e a China...

Nós temos parceiros comerciais importantes e o Brasil precisa se aproximar cada vez mais deles, pois somos grande exportadores de commodities, como minério e alimentos, e é impossível no mundo atual viver isolado. Cada vez mais, o Brasil fará parcerias, não só no Mercosul, mas também com os Estados Unidos, a China, a Europa. É assim que a economia mundial se movimenta. Esse é um ponto sem discussão.

Lá fora, também há uma grande desconfiança em relação ao novo governo, principalmente pela defesa do regime militar pelo presidente, o que poderia significar um risco para a democracia. O sr. vê algum risco nesse sentido?

A democracia no País é um patrimônio do povo brasileiro, conquistado com o voto. Não há qualquer risco a ela.

A reforma da Previdência tem sido apontada quase unanimemente como a principal mudança a ser feita pela equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro. O sr. acredita que o novo governo terá capacidade política para construir um consenso e aprovar essa reforma?

Não tenho dúvida. Não é uma vontade só do próximo governo. O próprio Congresso foi bastante renovado e esses novos parlamentares sabem das necessidades para que o País vá bem. Para que as pessoas possam ter uma aposentadoria digna e os problemas da Previdência sejam resolvidos, o País precisa ir bem. Há uma conjunção de necessidades, fatores, ideias e desejos de toda a população brasileira. A negociação faz parte da democracia e vai se chegar a bom termo para o que o Brasil precisa.

O que é preciso para que a reforma seja aprovada?

Tem de ter cuidado para respeitar os direitos adquiridos das pessoas e fazer o que for necessário para estancar este déficit bilionário, mas olhando muito para a população mais carente, que vive com o salário mínimo, e que tem esses recursos como a única fonte de renda para sua sobrevivência. Mas acho que as pessoas que estão olhando isso estão muito cientes desse tipo de preocupação, sobre a forma como fazer a reforma da Previdência, pois é um assunto extremamente sério. E é preciso haver investimentos para que surja outra forma de Previdência, com os planos privados.

Que efeito isso poderia trazer para a economia?

Esse é o remédio ideal para que a economia possa manter uma trajetória de crescimento por muitos anos. Não podemos viver, principalmente com expansão do PIB, com tanta volatilidade: um ano cresce, o outro não cresce.

Que avaliação o sr. faz da atual equipe econômico e a agenda que adotou para o País?

A equipe econômica que temos hoje, sobretudo no Banco Central, cumpriu com maestria seu papel. Ilan Goldfajn é um grande técnico e altamente qualificado.

O sr. defende que ele continue na presidência do Banco Central? 

Se for desejo dele, eu acho que ele vem fazendo um trabalho muito bom. Ele tem a confiança dos mercados, fez um trabalho árduo para poder ajustar o Brasil, mesmo nos momentos de crise mais severa, pois cumpriu bem o papel dele na condução da política monetária e combate à inflação. Tenho grande admiração pelo trabalho dele e da sua equipe. Tendo isso em perspectiva, as medidas que serão tomadas na nova fase da economia brasileira pela nova equipe econômica, o caminho está dado. Temos uma chance muito grande de ter muito sucesso. 

Que avaliação o sr. faz dos nomes da nova equipe econômica conhecidos até aqui, Paulo Guedes como ministro da Economia e Joaquim Levy na presidência do BNDES?

Joaquim Levy é um técnico de primeiro time, respeitado pelo mercado, inclusive internacional, é uma pessoas extremamente qualificada. O Paulo Guedes já se mostrou um economista de grandes ideias, um catedrático extremamente competente e, pelo que vimos ele falar, as ideias que ele vem pregando nada diferem do que o povo brasileiro gostaria de ver de fato acontecendo. 

Mas o que seria necessário para que a aplicação dessas ideias no Brasil viabilizem efetivamente a expansão dos investimentos, sobretudo em infraestrutura?

A ponte necessária para avançar os investimentos em infraestrutura é a confiança do capital estrangeiro para aplicar capitais no País. Ouvimos e vemos o interesse no País de vários fundos de investimentos e empresas estrangeiras, como é o caso do acordo da Boeing com a Embraer. Isso não é obra do acaso. É competência das empresas nacionais, o que é um só exemplo. Com a confiança do respeito aos contratos, regras estabelecidas, aquilo que foi acertado de investimento, respeitada a regra do jogo, eu tenho certeza, o Brasil é um grande país para se investir.

Quando esse aumento do investimento em infraestrutura poderia ocorrer?

Já agora, em 2019. O mercado internacional está muito líquido, tem capital, certamente o investidor estrangeiro virá para o País.

A privatização, nesse contexto, faz sentido?

Sim, as empresas que não fazem sentido estarem na mão do governo podem ser privatizadas. O importante é que a empresa seja rentável, pague impostos, para que o País possa avançar.

Como o sr. avalia o atual patamar do câmbio? 

Agora sim, acho que está num nível razoável. Chegou a bater R$ 4,20 e agora voltou para uma marca entre R$ 3,70 e R$ 3,75. É o câmbio ideal. É claro que, à medida que o Pais vá crescendo e outras forças atuem, ele vá se apreciando, mas dentro de uma normalidade que ocorre em qualquer economia no mundo e em momentos de crescimento e melhoria dos fundamentos econômicos.

O Bradesco espera avançar a concessão de crédito no próximo ano?

Por conta da situação da economia nos últimos anos, o crédito se reduziu por si só. Mas como vemos agora uma redução contundente da inadimplência, da micro à média empresa, até às pessoas físicas, as novas safras de concessão de crédito que apuramos mês a mês cada vez estão com qualidade melhor. E com esse fato de um lado, e o País crescendo, o Bradesco tem apetite por mais concessão de crédito, pois é mola propulsora importante dos resultados de qualquer banco. O Bradesco está muito bem neste ano no crescimento de crédito e nossa expectativa é de ter mais apetite.

Quanto o sr. acha que deve crescer a concessão total de crédito pelo Bradesco em 2019?

Neste ano, devemos crescer de 4% a 7%, mas a expectativa para o ano que vem, se as coisas melhorares, é crescer quem sabe dois dígitos. O crédito imobiliário tem registrado expansão de dois dígitos há mais de cinco anos. No caso da micro e pequena empresa, a expectativa é de que cresça de 9% a 10%. No caso das pessoas físicas, dependendo da volta do ritmo da geração de emprego, também deve crescer dois dígitos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.