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Agitação na reta final

Os mercados de câmbio e de ações abriram agitadíssimos ontem, início da última semana antes das eleições gerais de domingo. A cotação do dólar registrou forte alta de 2,5%, alcançando R$ 2,47, ao mesmo tempo em que a Bolsa de Valores despencava mais de 5%, com as ações da Petrobrás recuando acima de 10%. Os mercados refletiam movimentos da moeda americana no exterior, mas, muito mais do que isso, antecipavam tensões previsíveis para a reta final da campanha eleitoral no Brasil.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2014 | 02h05

Não há muito o que dizer, especificamente, a respeito das movimentações na Bolsa. Ao longo da semana, o mais provável é que se assista a uma sucessão de ajustes de posição e manobras de realização de lucros, pouco tendo a ver com motivações econômicas. Faz um tempo que considerações técnicas para as altas e baixas nos pregões foram deixadas em plano secundário ante rumores e apostas sobre o suposto desfecho da corrida presidencial.

A verdade é que se estabeleceu uma correlação negativa entre as cotações dos papéis, sobretudo de grandes estatais, com peso acentuado nos índices do mercado, e as indicações das pesquisas eleitorais para as possibilidades de a presidente Dilma Rousseff obter a reeleição que postula. Quando Dilma sobe nas pesquisas, a Bolsa cai - e vice-versa. No caso do mercado de câmbio, a correlação é positiva. Quando Dilma sobe nas pesquisas, o dólar sobe. Quando Dilma cai, a cotação também cai.

No câmbio, porém, não é só a marcha eleitoral que tem ditado a trajetória da cotação da moeda americana. Há também motivações de ordem econômica, principalmente de origem externa. Qualquer que seja a decisão dos eleitores, o real tende a procurar acomodação em terreno mais desvalorizado, como, por sinal, admitiu o Relatório de Inflação, do terceiro trimestre do ano, publicado também ontem pelo Banco Central. O documento, com projeções atualizadas do Banco Central para as principais variáveis macroeconômicas, por sinal, sinaliza - novas perdas de ritmo em indicadores como crescimento econômico, produção setorial e balança comercial.

Além da evidente motivação eleitoral, o mercado cambial tem sido pressionado, mais recentemente, pelo recrudescimento da perspectiva de uma antecipação na normalização da política monetária, nos Estados Unidos, a partir do início da retomada de altas nos juros de referência, agora previsto para o segundo trimestre de 2015. A última estimativa para a expansão econômica americana, no segundo trimestre, divulgada na semana passada, indicou aceleração mais forte e ajudou a reforçar essa perspectiva.

Com essa possibilidade mais próxima de se concretizar, nova movimentação de ativos tomou conta dos mercados globais. A desvalorização média das moedas emergentes ante o dólar passou, em setembro, de 5%, enquanto a do real, que sempre lidera esses movimentos, para cima ou para baixo, foi além de 7%. Menos pela evolução das contas externas, que aponta um déficit em transações correntes estacionado em torno de 3,5% do PIB - limite incômodo, mas ainda manejável -, do que pelos desequilíbrios no campo fiscal, a hipótese de rebaixamento da nota de crédito do Brasil do atual grau de investimento para o grau especulativo ajuda a empurrar a cotação do dólar para cima.

Embora nunca seja demais lembrar que, conforme a conhecida anedota, exercícios de previsão para as cotações do dólar foram inventados para humilhar os economistas, são baixas as probabilidades de explosão do dólar, à semelhança do ocorrido na reta final das eleições de 2002, quando Lula emergiu como provável ganhador, o que acabou se confirmando. Como naquele episódio, há desequilíbrios domésticos e incertezas externas, mas diferentemente daquela ocasião o governo dispõe de munição então inexistente, sob a forma de robustas reservas internacionais e cobertura do endividamento externo, para administrar pressões e evitar descontroles cambiais.

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