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Agonia grega

Os abalos europeus em mundo desorientado trazem possíveis choques para nós

Monica De Bolle*, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2017 | 05h00

Segundo os dicionários, agonia é a fase que precede imediatamente a morte, caracterizada pela perda gradual ou súbita das funções vitais. Agonia pode também ser definida como tormento ou angústia difíceis de aguentar por muito tempo. Passados sete anos da eclosão, a crise grega acaba de entrar em novo estado de agonia. Difícil saber se dessa vez trata-se do estado que precede a separação do resto da zona do euro, ou se é mais uma instância de angústia nesses sete longos anos em que pouco progresso houve.

O FMI declarou recentemente que a dívida grega é “altamente insustentável”. De acordo com o vernáculo da instituição para caracterizar as trajetórias das dívidas de um país, elas podem ser sustentáveis, fronteiriçamente sustentáveis (“borderline sustainable”), insustentáveis, ou altamente insustentáveis (“highly unsustainable”). Se o leitor que acaba de passar os olhos nessas linhas encontrou nas nomenclaturas dose exemplar de vagueza, advirto que o “fundês” – idioma corrente da instituição situada em Washington – é proposital. Países com dívidas “altamente insustentáveis” são aqueles para os quais o FMI julga ser inevitável uma reestruturação. A Grécia concluiu operação de reestruturação da dívida pública em 2012, com modesta redução do valor presente da dívida, o que, à época se dizia, elevava o risco de que reestruturações futuras. Cinco anos depois, o problema é pior.

A dívida da Grécia, hoje, soma ¤ 326 bilhões, ou aproximadamente 180% do PIB. Cerca de ¤ 226 bilhões – ou uns 30% do total da dívida pública – é devido aos seguintes credores: o Fundo de Estabilidade Financeira Europeu (EFSF) e seu sucessor, o Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM); ao Banco Central Europeu; aos governos da zona do euro. Aos credores privados, a Grécia deve ¤ 40 bilhões, enquanto ao FMI, suas obrigações somam ¤ 19 bilhões, ou uns 6% da dívida total. Nova reetruturação da dívida grega recairia, principalmente, sobre os governos da zona do euro e sobre as principais instituições da união monetária. Não surpreende, portanto, que os governos europeus tenham expressado visão oposta à do FMI, insistindo que a dívida grega não é tão insustentável assim, que “altamente insustentável” é um exagero.

Além de divergirem sobre o grau de insustentabilidade, FMI e governos europeus têm posições para lá de diferentes em relação ao que a Grécia é capaz em termos de ajustes fiscais. Diz o FMI que o país mediterrâneo não tem capacidade de gerar superávits primários superiores a 1,5% do PIB, o que não produziria uma queda da dívida ao longo do tempo. Na contramão, a Comissão Europeia insiste que a Grécia pode produzir superávit de 3,5% do PIB até 2018, e de sustentá-lo nesse nível por um tempo, o que levaria a uma queda da razão dívida/PIB ao longo dos próximos muitos anos. No cerne dessa divergência estão hipóteses acerca da capacidade política de gerar vultosos superávits por anos a fio. Alguns governos europeus argumentam ser isso possível. O FMI, profundo conhecedor do fenômeno conhecido como “fadiga do ajuste” que costuma se apoderar de países que tentam o caminho da austeridade extrema por tempo indeterminado em meio a condições econômicas precárias, não considera plausível o cenário da Comissão Europeia. Está, portanto, dado o impasse.

Contudo, uma vez que são os governos europeus os principais credores da Grécia, o mais provável é que sejam vitoriosos ao perseverar no caminho de maior agonia, elevando as chances de que o divórcio se dê em algum momento, quando a população não mais aguentar. Os tempos não são auspiciosos para tal desenlace, isto é, uma fragmentação ainda que amplamente esperada da zona do euro abalaria ainda mais o bloco no mundo pós-Brexit, com Trump, e contenciosas eleições na França, na Itália, e na Alemanha em 2017.

Não tenho escrito sobre o Brasil – voltarei a analisar as agruras nacionais em breve. Deixo aqui o alerta: a agonia da Grécia traz valiosas lições para nós. Os abalos europeus em mundo desorientado trazem possíveis choques para nós. O otimismo brasileiro está para lá de exagerado. Mas, talvez seja apenas alegria de carnaval.

*Economista, pesquisadora do Peterson Institute For International Economics e professora da Sais/Johns Hopkins University 

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