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Ágora

O Brasil parece estar maduro e esperançoso por políticas públicas que tenham impacto sobre suas vidas

Monica de Bolle*, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2017 | 05h00

Na Grécia antiga, a ágora era o espaço público mais importante das cidades-Estado, centro de atividades das mais diversas, do esporte às artes, da vida espiritual à vida política. As ágoras eram lugares de contato direto entre as pessoas, contraste com as supostas ágoras modernas, as redes sociais, onde muitas vezes predomina a falta de civilidade, onde a polarização política impede qualquer debate centrado, sóbrio, racional. Como muitos de nós passam alguma parte de nossos dias nas redes sociais, atribuímos ao que lá encontramos as tendências gerais da sociedade. As redes, entretanto, não são as ágoras modernas, por mais que possam ter alguma utilidade. Prova disso é a pesquisa nacional conduzida pelo Ideia Big Data e encomendada pelo Movimento Agora!, mobilização cívica sobre a qual muito se ouvirá falar em breve.

A pesquisa do Ideia Big Data mostra, primeiramente, que a polarização política brasileira – o suposto embate entre esquerda e direita – prospera nas redes, mas não necessariamente no cotidiano das pessoas. Mais de 10 mil entrevistados espalhados por 37 cidades do País rechaçaram o alinhamento ideológico tradicional. Perguntados sobre o quão importante é a identificação de uma determinada política pública com a esquerda ou a direita, 72% disseram que o relevante não é tal distinção, mas sim se a política trará melhorias para suas vidas. O resultado é consistente em todas as regiões do País, sobretudo no Nordeste, onde 80% da população entrevistada não quer saber de diferenciação ideológica; no Sudeste, 75% afirmaram não se importar com o suposto viés ideológico de políticas públicas.

Ainda mais interessante foram as revelações sobre como brasileiros e brasileiras percebem os políticos. Perguntados se movimentos da sociedade fora da política merecem mais atenção do que os atuais partidos políticos, 43% concordaram com tal afirmativa, enquanto 38% discordaram.

Portanto, o apoio à política persiste na sociedade. Contudo, 77% dos entrevistados disseram que seu apoio é para a pessoa (o candidato ou candidata) e não para o partido político a que pertence. No Nordeste, a importância do candidato como pessoa, não como membro de partido, é de impressionantes 90% -- no Sudeste, tal visão foi igualmente exposta por 74% dos entrevistados.

Brasileiros e brasileiras não gostam muito da ideia de que pessoas que jamais concorreram a algum cargo eletivo, mesmo que pertençam a partidos conhecidos, sejam eleitas – 49% repudiaram a ideia. Contudo, perguntados se gostariam de ver cidadãos comuns – pessoas de fora da política, como professores, empreendedores, trabalhadores em geral, profissionais liberais, enfim, gente com quem se identificam -- candidatando-se a algum cargo, 79% afirmaram que é por isso que anseiam em 2018. No Sul e no Sudeste, mais de 80% dos entrevistados querem o cidadão comum na política, no Centro-Oeste, Norte, e Nordeste, mais de 70% anseiam por “gente como a gente”. Esses mesmos entrevistados afirmaram contundentemente que movimentos de fora da política, formados por cidadãos comuns, entendem bem melhor seus problemas do que políticos e partidos políticos – 81% concordaram com a afirmativa. Se o resultado parece contradizer as evidências anteriores, vale destacar a ênfase na ideia de “cidadãos comuns”, isto é, a pesquisa revela que parte relevante da população brasileira busca pessoas que entendam seus problemas precisamente porque esses indivíduos os conhecem de primeira mão.

O Brasil parece estar maduro e esperançoso por políticas públicas cujos resultados tenham impacto sobre suas vidas, sem o peso da corrupção ou o ônus ideológico do eixo direita-esquerda. Há busca por um centro hoje desocupado, por lideranças que tenham ligação direta com a sociedade. Não faz muito tempo, renomado cientista político brasileiro escreveu que o Brasil não corre o risco de dar certo. A pesquisa do Ideia Big Data e movimentos da sociedade civil como o Agora! sugerem o contrário. As pessoas, apesar de desconfiadas e sofridas, estão prontas para que o País corra, sim, o risco de dar certo. Que sejam, portanto, ocupados os espaços públicos dessa grande ágora tropical.

* ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR INTERNATIONAL ECONOMICS E PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY

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