'Agora, País precisa de políticas de curto prazo'

Para Scheinkman, Levy já entendeu que ajuste fiscal não pode ser feito de uma vez

Entrevista com

José Alexandre Scheinkman

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2015 | 02h02

Na eleição presidencial de 2002, José Alexandre Scheinkman liderou um time de economistas que deu vida ao trabalho batizado de "A Agenda Perdida". No documento, várias propostas eram apresentadas para "a retomada do crescimento com maior justiça social." Atualmente, Scheinkman continua vendo uma situação preocupante para o Brasil com o aumento do hiato entre a produtividade brasileira em relação à dos Estados Unidos. "Os países se tornam desenvolvidos quando a produtividade se aproxima da produtividade dos países de fronteira", afirma Scheinkman, professor emérito de Princeton, nos Estados Unidos, e um dos economistas brasileiros de maior destaque acadêmico no exterior. Por ora, ele diz que os sinais da nova equipe econômica são positivos. Scheinkman foi orientador da tese do novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, em Chicago. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Como o sr. analisa o cenário econômico do Brasil em 2015?

Acredito que 2015 vai ser complicado para o Brasil como consequência das políticas econômicas dos últimos anos. A nova equipe econômica herda uma situação de baixo crescimento e inflação perto do teto da meta. As reformas fundamentais também não são feitas há muitos anos no Brasil. Essa combinação torna a situação da equipe econômica complicada. O Joaquim Levy é uma das pessoas mais competentes do Brasil para passar por esse período, mas isso não torna a tarefa dele mais fácil.

Como o sr. vê os primeiros sinais da nova equipe econômica?

As políticas de curto prazo são muito importantes neste momento. Os sinais são de que o Joaquim Levy entendeu que o Brasil precisa passar por um ajuste fiscal, que não pode ser feito de uma vez. Em um determinado momento, tem de se criar uma meta de um superávit primário maior porque será preciso um superávit acima de 2% do PIB para facilitar a tarefa do Banco Central e o País voltar a uma trajetória de diminuição da dívida. Evidentemente, ainda há muito detalhe para ser anunciado, mas os sinais são bons.

Além das medidas de curto prazo, o que pode ser feito a médio e longo prazos para acelerar o crescimento?

Precisa, de novo, retomar uma agenda de reformas. Nós precisamos, de alguma maneira, deslanchar o processo de criação de infraestrutura no Brasil. Isso tem várias etapas.

Quais etapas?

A melhoria na criação de infraestrutura passa tanto por parte de uma racionalização da regulamentação como na criação de um sistema que dê confiança ao setor privado para investir. A confusão criada no setor elétrico, por exemplo, é um problema que se herda para 2015. Essa questão não só está prejudicando o curto prazo, mas também diminui a confiança dos empresários. Esse tipo de coisa precisa passar por uma mudança na mentalidade para permitir o investimento do setor privado.

Nos últimos anos, houve um problema de confiança entre o governo e o setor privado. Como essa relação poderia melhorar?

A confiança do empresário não se pode manipular. Essa confiança vai chegar à medida que o governo adotar uma política racional, menos populista e que siga uma trajetória que permita o crescimento.

O ajuste que se desenha agora é maior do que aquele feito em 2003?

Era um outro cenário. Em 2003, havia uma grande incerteza tanto dentro como fora do Brasil sobre o que viria. Acredito que, apesar da má condução da política econômica nos últimos quatro anos, não existe uma desconfiança semelhante em relação ao governo atual e o ajuste de hoje tem um aspecto diferente.

Quais os impactos que o ajuste pode trazer na economia?

O Brasil tem de passar por um ajuste fiscal. Qual seja a característica desse ajuste - seja por corte de despesas e de programa, seja por aumento de impostos -, normalmente, ele traz, no curto prazo, um certo impacto negativo na atividade econômica. Mas isso não quer dizer que não precisa ser feito, porque o problema fica maior e mais difícil de ser trabalhado à medida que o tempo passa.

Se o ajuste for feito, o Brasil evita um rebaixamento?

Mais difícil do que prever o comportamento da economia no curto prazo é tentar prever o que as agências de rating vão fazer. Acredito que as agências não têm toda essa credibilidade depois da crise do subprime dos Estados Unidos. Evidentemente, por causa de restrições institucionais que existem em vários investidores, o grau de investimento representa uma baixa no custo e um aumento da disponibilidade de recursos. Então, é importante que Brasil mantenha o grau de investimento. Mas o governo tem de olhar é para as políticas que vão trazer um aumento do grau de estabilidade da economia brasileira e do crescimento, e aí o grau de investimento é mantido, assim como ele foi obtido.

Quando a economia brasileira pode voltar a crescer?

A questão do crescimento sustentável passa por mudanças de longo prazo, como aumento de infraestrutura e da poupança do governo - como já disse. O País precisa de uma reforma tributária para racionalizar o sistema brasileiro. O Brasil fez o Simples, uma simplificação para as firmas pequenas, e agora precisa simplificar para todo mundo. São medidas necessárias para fazer com que a economia brasileira tenha uma trajetória de crescimento de longo prazo. Atualmente, uma das coisas que se vê no Brasil - e que ocorre há muito tempo - é o aumento de hiato de produtividade em relação aos Estados Unidos. O processo de crescimento do Brasil só vai ocorrer quando nós tivermos as condições para que a produtividade do trabalhador brasileiro, ao invés de se distanciar, se aproxime das economias de fronteira. A história da economia mundial é essa: os países se tornam desenvolvidos quando a produtividade se aproxima da dos países líderes.

Por que a produtividade brasileira é baixa em relação à americana?

O trabalhador brasileiro é menos educado e a taxa de investimento é baixa no Brasil. Então, você tem pouco capital por trabalhador. Nós usamos o capital de trabalho muito pior do que os outros países.

Por quê?

Não é que o empresário brasileiro seja ruim. Quando ele compete com o resto do mundo, faz muito bem. O problema é que eles encontram um ambiente muito difícil. O Brasil tem sido particularmente ruim em como usar o capital de trabalho.

A melhora da produtividade é a grande chave para o Brasil?

O interessante é o seguinte: o Brasil já resolveu esse problema em algumas áreas. Na agricultura, a produtividade cresceu muito mais rápido do que em outros países. E o que aconteceu na agricultura? Foi a fundação da Embrapa e o desenvolvimento do que se chama de agricultura tropical. O método de agricultura no Brasil é um exemplo para o mundo inteiro. Os países que estão numa situação climática parecida com a do Brasil olham a agricultura brasileira como um exemplo de tecnologia a ser copiada. Depois, foi um setor que passou por uma desregulamentação muito grande em 1990. As pessoas se esquecem disso, mas o Brasil era um lugar em que se precisava de licença para exportar açúcar ou importar trigo. E isso também demonstra o seguinte: não precisam ser resolvidos todos os problemas para ter o crescimento que a gente gostaria de ter.

Como assim?

A agricultura brasileira ainda tem uma infraestrutura de transporte muito difícil e um ambiente legal complicado. Em vez de o governo procurar um campeão nacional, ele precisa pensar em quais são os setores em que a pesquisa básica pode causar esse efeito multiplicador que a Embrapa teve na agricultura. Esse é o debate que deveríamos ter.

O sr.magina em quais setores poderiam ser replicados esse modelo da agricultura?

É preciso olhar onde o Brasil tem capacidade científica e técnica. Um outro exemplo que é parecido com o da Embrapa, talvez não teve efeito tão grande na economia brasileira, mas foi importante, foi na aviação. O ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), de uma certa maneira, irradiou um domínio científico e tecnológico. O Brasil tem capacidade científica importante em várias áreas chave da economia mundial.

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