Agora tudo é fácil

As propostas econômicas dos candidatos viajam da redundância ao absurdo, com longa escala na obviedade

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2018 | 05h00

Em linhas gerais, os desfiles das ideias econômicas dos candidatos à Presidência da República são toscos e ocos – mas, ainda assim, não surpreendem. Há um certo protocolo a ser seguido pelos assessores de campanha dedicados à inglória missão de instruir seus patronos. As restrições são muitas e há um protocolo rigoroso a ser seguido, o que impõe uma coreografia elaborada.

A primeira regra é que é preciso pôr a culpa no governo que está saindo. Essa parte é a mais fácil hoje, já que nem sequer o candidato do MDB tem alento para defender os resultados da política econômica que coordenou. A segunda norma é mais sutil: é preciso agigantar os problemas do País, mas sem dar a entender que sua solução dependerá de o eleitor oferecer-se para ser imolado no altar dos sacrifícios. A razão, aqui, é de uma clareza solar: não se pode pedir mais de uma população que enfrenta desemprego e estagnação econômica. Mas, como a culpa é dos outros, você, eleitor, não vai pagar esta fatura. Por fim, é preciso ser otimista, porque, afinal de contas, somos um país destinado a ser uma grande potência tropical, o que só não aconteceu até agora porque temos o estranho hábito de escolher governantes medíocres e corruptos.

A crise fiscal, evidentemente, é o grande tema em torno do qual gravitam querelas. Candidatos mais conservadores, que se dizem liberais, preferem prescrever o ideário maximalista de quem acha que propostas econômicas podem ser encapsuladas em ampolas lacradas. Privatizações em ritmo frenético, corte de subsídios, redução linear de despesas de custeio. Soa bem, porque atende ao princípio de terceirizar a penitência e expiar os males de forma indolor. Mas certamente vai se chocar com o desejo do eleitor brasileiro de poder contar com um Estado benfeitor, indolente e balofo. O Congresso, que terá baixa taxa de renovação, certamente vai barrar o desmanche do Leviatã, mas aí não será culpa do ministro da Fazenda – como se isso fizesse alguma diferença.

Uma segunda linha de abordagem é minimizar o tamanho da encrenca e apresentar a conta para quem senta na ponta da mesa. Só os ricos vão pagar (e você, eleitor, não é rico, é?). Basta taxar dividendos, dizimar aposentadorias milionárias, aumentar o imposto sobre heranças e regulamentar o imposto sobre grandes fortunas. Como tempero, é sempre possível aumentar a progressividade do Imposto de Renda, combater o desperdício por meio de um “choque de gestão” e, claro, extirpar a corrupção. Este receituário tem a enorme vantagem de grudar nos ouvidos como um estribilho de um bolero cafona, mas o problema é que a conta não fecha. Tudo isso é muito para ser aprovado nos meandros da burocracia do Congresso, mas insuficiente para equacionar uma dívida pública que cresce de forma descomunal.

Por fim, há também quem enfrente o problema fiscal simplesmente negando sua existência. O desequilíbrio das contas públicas deve ser resolvido apenas com crescimento do emprego e da renda. É como ir ao médico e ouvir que o remédio é se divertir mais. Trata-se de otimismo desvairado, do tipo de quem acha que o inferno é apenas uma sauna. Professora Dilma nos ensinou que fuga para a frente é apenas um delírio. Fingir que o problema não existe não o resolve. A conta chega – maior.

As propostas econômicas dos candidatos viajam da redundância ao absurdo, com longa escala na obviedade. Ainda assim, vivemos um período profícuo. Debater o futuro do País é sempre bom. É da essência dos regimes democráticos o livre embate das ideias, o que inclui, por definição, aquelas que achamos erradas. O verdadeiro teste virá logo mais, quando a tese vencedora será exposta à chuva ácida das conveniências políticas.

* ECONOMISTA. FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL DO BRASIL E PROFESSOR DA PUC-SP E FGV-SP. LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.COM

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