Wilton Junior/Estadão
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Agora vai?

Recessão no Brasil continua forte, mas há sinais de recuperação; desfecho da crise política deve ajudar

The Economist, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2016 | 21h36

Para muitos brasileiros, o ponto alto da Olimpíada do Rio aconteceu na segunda-feira, num estádio encharcado pela chuva. Foi quando Thiago Braz conquistou uma inesperada medalha de ouro e quebrou o recorde olímpico do salto com vara. A economia brasileira está longe de realizar proeza semelhante à de Braz, mas talvez esteja começando a sair do chão.

Os sinais ainda são débeis. A indústria voltou a investir: em junho, as importações de bens de capital cresceram, em dólar, 18% em relação a igual mês do ano passado. É a primeira alta anual desde setembro de 2014. Também em junho, depois de dois anos em queda quase ininterrupta, a produção do setor aumentou pelo quarto mês consecutivo. Os estoques começam a encolher e o número de caminhões na estrada parou de cair.

As empresas ainda não estão animadas o bastante para começar a contratar, diz Arthur Carvalho, do banco Morgan Stanley, mas o ritmo das demissões diminuiu. Isso vem deixando os consumidores menos macambúzios: em julho, o Índice de Confiança do Consumidor da Fundação Getúlio Vargas registrou sua terceira alta mensal consecutiva. E o Fundo Monetário Internacional (FMI), depois de repetidas revisões para baixo nas projeções de crescimento para o País, adicionou algumas gotas de otimismo em seus cálculos: agora a instituição espera um crescimento de 0,5% do PIB em 2017. Em abril, suas estimativas diziam que a economia brasileira não sairia do lugar. No setor privado, alguns economistas chegam a prever uma expansão de 2% do PIB em 2017.

Muito desse ânimo renovado vem de Brasília, onde a crise política parece finalmente caminhar para um desfecho. Na próxima quinta-feira, o Senado deve dar início ao julgamento da presidente Dilma Rousseff, que é acusada de maquiar a contabilidade oficial. Embora a petista refute a acusação, poucos analistas duvidam que ela será destituída do cargo – o que deve acontecer em setembro. Os 28 meses que restam de seu mandato serão cumpridos pelo vice-presidente, Michel Temer, que está no comando de um governo interino desde maio.

Temer não precisou fazer muito para injetar disposição na economia brasileira: bastou que não fosse Dilma. A Bolsa de Valores só faz subir desde que ele assumiu a Presidência. Mais pró-mercado que a presidente afastada e dotado de muito mais tarimba para lidar com os congressistas, Temer acena com reformas que deixam os agentes econômicos esperançosos.

Depois de aprovado em fevereiro no Senado, o projeto de lei que amplia a participação do capital privado na exploração do petróleo do pré-sal agora tramita na Câmara. Os parlamentares também estão analisando um projeto que obriga as autoridades a se decidir sobre a concessão de licenças ambientais num prazo máximo de dez meses, agilizando processos que, segundo os investidores, atualmente chegam a arrastar-se por anos a fio. Também na próxima quinta-feira deve sair a lista de estatais que o governo pretende privatizar. Com a forte desvalorização que o real sofreu entre 2011 e 2015, as exportações ficaram mais competitivas, o que também contribui para o otimismo.

O outro lado. Nada disso significa que a economia recuperou a forma. A renda das famílias continua em queda, e o índice de desemprego ainda deve subir outro ponto porcentual, batendo em cerca de 12%, antes de começar a recuar, no ano que vem. No mercado de crédito ainda reina a cautela. O leilão de privatização da distribuidora de energia Celg, de Goiás, que estava marcado para esta semana, teve de ser cancelado por falta de interessados. Dados sobre o PIB, a serem divulgados este mês, devem indicar que a retração econômica continuou forte no segundo trimestre deste ano.

Para manter a confiança em alta, o governo Temer precisa reduzir o déficit fiscal, que hoje chega a alarmantes 10% do PIB. Sem isso, o crescimento vai continuar sendo refreado pelos juros altos, ou a inflação vai disparar. Temer pretende aprovar emendas constitucionais, estabelecendo um teto para os gastos públicos em termos reais e reformando a Previdência Social. Até o momento, porém, o que o presidente interino fez foi ampliar a gastança. Com seu traquejo político, Temer convenceu o Congresso a ampliar para 2,5% do PIB a meta de déficit primário (antes do pagamento de juros) que o governo Dilma havia fixado em 1% para este ano. Também concordou com aumentos elevados nos salários do setor público e fez concessões substanciais aos falidos governos estaduais.

Os auxiliares de Temer dizem que essa generosidade toda garantirá o apoio político de que o governo precisa para aprovar as reformas fiscais, depois que Dilma for definitivamente desalojada do Palácio do Planalto. O mercado financeiro parece acreditar nisso: o custo da proteção contra um eventual calote da dívida brasileira está em queda. Mas o humor pode virar de novo se Temer deixar de cumprir os compromissos de não pouca monta que estabeleceu para si mesmo e para o País.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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