Agreste tem 2º maior polo têxtil do País

Com 8 mil novos empreendimentos em 10 anos, região só perde para São Paulo

ANGELA LACERDA, ENVIADA ESPECIAL / TORITAMA (PE) , O Estado de S.Paulo

06 Janeiro 2013 | 02h06

O polo de confecções do agreste pernambucano, cujo motor se concentra nas cidades de Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, registrou um aumento de oito mil novos empreendimentos ligados ao setor, na última década, além de uma expansão territorial do negócio, que agora abrange outros dez municípios da região, localizada no semiárido.

Os números são de uma pesquisa ainda em andamento do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-PE) sobre o setor. A pesquisa classifica como empreendimentos empresas formais, informais e também as que produzem por encomenda para terceiros.

Os 12 mil empreendimentos registrados em 2003 são, agora, cerca de 20 mil. O polo já é o segundo maior do País - só perde para São Paulo. A região oferece cerca de 100 mil empregos e produz 900 milhões de peças por ano. Não há desemprego no setor, que tem penado com carência de mão de obra qualificada.

Referência. Nascido na informalidade, o polo pensa alto. Um fórum estratégico da cadeia têxtil de Pernambuco, criado em 1999, por demanda de empresários e instituições da área, deu origem no ano passado, à organização social Núcleo Gestor da Cadeia Têxtil e de Confecções de Pernambuco (NTCPE) que, por sua vez, formou o Marco Pernambucano da Moda, um centro de referência com inauguração prevista até o meio do ano em um prédio histórico em Recife.

Planos não faltam: há projetos que vão desde incubadoras para estimular criações a iniciativas para aproximar academia e produção. A base do trabalho, explica o integrante do Núcleo, Edílson Tavares - também presidente da Lavanderia Mamute, especializada em lavagem industrial de jeans, em Toritama - é consolidar a imagem do produto do polo de confecções do agreste como de boa qualidade e bom preço. Segundo ele, um dos desafios é apagar a pecha de que a região é produtora de "sulanca" - sinônimo de "coisa de pobre" ou de baixa qualidade.

Por meio do NTCPE, foram contratadas pesquisas - ainda não concluídas - para identificar mercados no Brasil e estratégias de penetração. "Hoje as pessoas vêm aqui comprar, o que não é sustentável no longo prazo", avalia Tavares. A solução, segundo ele, é criar centros avançados de vendas - como showrooms de atacado - e sites com serviços de vendas. Também está sendo estudada a possibilidade de comercialização pontual em cidades do País durante eventos de grande movimentação.

"Até junho começaremos a definir metas", garante o empresário, ao destacar a pretensão de formalizar 100% dos centros de comercialização do polo. "Saímos de 100% de informalidade e irregularidade na questão ambiental no início dos anos 90 e demos um salto espetacular", afirma ele. Hoje 80% das empresas são formais, no comércio e na produção. A deficiência maior ainda é na produção. "Tem havido terceirização na produção, a chamada facção, o que não é bom."

O fracionamento tem ocorrido com a divisão da produção em três ou quatro unidades, para pagar menos impostos. "Isso é um retrocesso e não protege o trabalhador", avalia. "Tem de fracionar de forma correta, com empresas legitimamente constituídas, ou através de cooperativas."

Ambiente. Tavares destaca a importância de o polo se adaptar ao caminho da sustentabilidade ambiental e social. Ele lembra que as lavanderias, concentradas em Toritama - cidade responsável por 16% da produção nacional de jeans - já chegaram a indignar ambientalistas e população ao deixar o Rio Capibaribe, que corta o município, manchado de azul. Hoje, 80% das lavanderias são regularizadas e 70% têm interesse em ter um selo verde que agregue toda regularização ambiental. A Mamute, diz ele, é exemplo e usa sistema de reciclagem de água com tecnologia alemã.

Outro tema que deve ser discutido pelo NTCPE é a necessidade de Pernambuco voltar a produzir algodão. "É inadmissível ter uma produção de quase um bilhão de peças e se importar tecidos", destaca Tavares.

Embora no polo ninguém mais toque no assunto, o episódio, ocorrido há um ano, da importação de lençóis hospitalares dos Estados Unidos com indícios de contaminação, feita por uma empresa de confecção de bolsos, a Na Intimidade, apavorou a população local. O presidente da Associação Comercial de Santa Cruz do Capibaribe, José Gomes Filho, garante que o "caso foi superado". O empresário Altair Teixeira de Moura, responsável pela importação, passou a ser o inimigo público "número 1" da cidade. Teve de fechar as portas e se mudou.

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