Agricultor da UE reage a acordo com o Mercosul

Principal insatisfação é com a redução dos subsídios a produtores, que devem cair 15%

Andrei Netto, correspondente, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2014 | 02h11

PARIS - Diante da iminência de um acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, produtores rurais da França e de boa parte da Europa transformaram o Salão da Agricultura de Paris no salão dos descontentes.

Boa parte da insatisfação se dá pela redução da Política Agrícola Comum (PAC), o orçamento europeu para subsídios a agricultores, que entre 2014 e 2020 será 15% menor do que entre 2007 e 2013. Mas a outra parte se dá pela perspectiva de abertura dos mercados, incluindo o acordo com Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela.

O salão, realizado no parque de exposições de Porte de Versailles, em Paris, é o maior evento agropecuário do país e um dos mais tradicionais do mundo. Além de um ponto de encontro do mundo urbano com o agrícola, a feira é também o momento em que organizações sindicais pressionam o governo para não ceder à abertura dos mercados. Ontem, as declarações da presidente Dilma Rousseff e do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, de que o acordo de livre-comércio entre União Europeia e Mercosul caminha bem, trouxe mais preocupações ao mundo agrícola.

Produtores de cereais e de gado são os mais suscetíveis às reclamações. Além do acordo comercial com o Mercosul, Bruxelas negocia também com o Canadá e os Estados Unidos. Não bastasse, frigoríficos da França sofreram o impacto do escândalo da mistura de carne de cavalo em congelados da Europa. O resultado é a precariedade. "O setor bovino, que emprega 800 mil pessoas, está em perigo", afirmou o secretário-geral da Federação Nacional Bovina (FNB), Jean-Pierre Fleury.

De acordo com o executivo, a queda do abate chegou em 2013 a 6%. Só o frigorífico Bigard, que responde por 43% dos abates na França, perdeu 11% no ano passado - dado que se soma à queda progressiva do consumo de carne no país.

Há 10 dias, a FNB divulgou nota conjunta com produtores bovinos da Espanha, da Itália e da Irlanda, na qual a entidade promete acionar a Comissão Europeia, a Direção de Saúde e Proteção dos Consumidores (DG Sanco), o Parlamento Europeu e governos nacionais contra as negociações de livre-comércio com os Estados Unidos e o Mercosul.

Hormônios. A principal justificativa do setor é que os produtores rurais de países como o Brasil usam certos métodos de criação e de plantio não autorizados na Europa, como o emprego de hormônios de crescimento, de alimentos genericamente modificados e de clones.

Em nota oficial, a FNB afirmou: "A Comissão Europeia mente a 500 milhões de consumidores europeus ao não admitir que é impossível para a carne proveniente dos EUA, do Canadá e do Mercosul respeitar os standards europeus de traçabilidade, segurança alimentar, saúde e bem-estar animal, assim como o respeito ao ambiente".

Os produtores se queixam que o projeto de acordo com o Canadá, assinado em junho de 2013, equivale a importar 65 mil toneladas de carcaça de boi, o que teria impacto direto para os produtores da Europa.

No caso do acordo com o Mercosul, o cálculo ainda não pode ser feito porque as propostas dos dois lados do Atlântico ainda não foram apresentadas, mas no caso americano o impacto já pode ser estimado.

"O acordo com o Canadá será utilizado como referência para o acordo com os Estados Unidos, com contingentes quatro a cinco vezes superiores", diz Guy Hermouet, vice-presidente para Exportações da FNB.

Para Nicolas Goetzmann, estrategista de Macroeconomia da Fundação para a Inovação Política (Fondapol), de Paris, a questão agrícola continua um ponto sensível das negociações do acordo UE-Brasil, mesmo que o comércio bilateral tenha evoluído de forma positiva para os europeus em 2013 - 3% a mais de exportações e 13,4% menos importações do Brasil.

"Os europeus querem evitar a concorrência com a agricultura brasileira, e os brasileiros gostariam de evitar ver se desenvolver a concorrência sobre os mercados públicos", disse Goetzmann ao site francês Atlântico. "O que é desolador é que o Brasil e a UE imaginam melhorar suas perspectivas econômicas com esse tipo de troca."

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