Agricultor vive de ajuda pública sem transposição

Prestes a completar 80 anos, o agricultor José Muniz se lembra que ao longo de seis grandes secas, desde os anos 50, comeu muitos preás - uma espécie de roedor - e matou a sede com água de xique-xique - cacto natural da região. Nem por isso deixou Icó, as terras da família. Ele também não dividiu a fazenda. Ali reuniu os dez filhos e seus cônjuges, netos e bisnetos. Hoje eles esperam todos juntos pela chuva.

O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2014 | 02h09

Muniz mora no interior de Parnamirim, município no semiárido que tem uma das maiores proporções de área rural em Pernambuco. A região tem dois trunfos diante das estiagens - os açudes de Chapéu e Entremontes. Inaugurados nos anos 80, viabilizam a irrigação e fazem da região referência na agricultura de pequena escala.

Ambos são a fonte de renda de localidades próximas porque viabilizam culturas como tomate, cebola, melancia e banana, além da criação de ovinos e cabras para a venda de leite e queijos.

Castigados pelo sol, o calor e a falta de chuvas desde 2012, os açudes minguaram. Chapéu está com 7% da capacidade. Entremontes com 9%. Mas não precisava ser assim. Eles deveriam ter sido os primeiros açudes interligados à transposição do São Francisco por um ramal de 100 quilômetros, que mal começou a ser construído. Assim, a maioria dos agricultores foi obrigada a trocar o trabalho pela assistência do governo. Parnamirim sintetiza a realidade atual de centenas de municípios. Segundo Lucia Ana de Barros, secretária de Assistência Social de Parnamirim, por causa da seca 62% da população vive de Bolsa Família. "Sem a ajuda do governo, haveria êxodo", diz Lucia.

Desde 2012, o governo federal já desembolsou R$ 1,3 bilhão em Bolsa Estiagem para mais de 1 milhão de agricultores nordestinos. Também ofereceu uma média de R$ 150 reais para cerca de 840 mil produtores, de 921 municípios, pagos via Garantia Safra.

Ajuda. Muniz atesta o valor da ajuda pública. "Esta seca é braba, mas tivemos mais facilidades porque o governo ajuda", diz. Segundo Erenice Clementino da Silva, filha de Muniz, a família, que divide tudo, se apoia hoje no Bolsa Família, no Garantia Safra e na aposentadoria do pai. "Sem isso, não sei do que iríamos viver", diz Erenice. "Mas o que a gente quer mesmo é que a chuva volte para podermos plantar."

Os Muniz cultivam, para consumo próprio e venda, milho, feijão e frutas, como melancia. A fonte de água era o Entremontes. Hoje, o vestígio de que um dia se plantou em Icó são as galhas retorcidas de 80 goiabeiras mortas ao lado de um dos tantos riachos que secaram sem a força do açude, que está a 1 quilômetro de lá. Para quem vive na fartura da água no Sudeste e no Sul, a visão do Entremontes paralisa a retina - bois e cabras magérrimos, criados ao léu, caminham lentamente em direção ao fundo para beberem a contragosto o líquido esverdeado e salobro que resta.

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