Agricultura fraca e revisão de dados afetam PIB do 3º trimestre

Mercado reage com frustração à informação de que economia cresceu 1,3% em relação ao 2º tri

estadao.com.br,

10 de dezembro de 2009 | 13h40

O mercado reage com frustração aos dados de expansão da economia brasileira de 1,3% do terceiro em relação ao segundo trimestre deste ano, que ficou aquém do projetado por analistas e também pelo próprio governo, que variavam de 1,6% a 2,9%.

 

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, que vinha projetando alta de 2% para o período, admitiu após a divulgação que o resultado ficou "longe" de suas previsões e que ninguém esperava por isso. Ainda assim, o ministro insiste na aposta de que o PIB deste ano ainda pode ser positivo.

 

De acordo com o IBGE, as razões para o resultado inferior ao estimado estão não só nas revisões dos dados de 2007 e 2008, como também no baixo desempenho da agricultura no período de julho a setembro deste ano.

 

Quando perguntada sobre por que motivo os dados do terceiro trimestre vieram abaixo do esperado, a gerente de contas trimestrais do instituto, Rebeca Palis, respondeu que "revisamos toda a série e as pessoas que fazem projeções não dispunham desses novos dados".

 

Ela admite que a revisão dos dados trimestrais mostra uma recuperação da economia menos intensa do que se acreditava, "mas seria exagero dizer que muda o cenário". Ainda assim, para fechar o ano no azul, o PIB do quarto trimestre terá de avançar pelo menos 5% ante igual período do ano passado, diz.

 

Metodologia

 

O uso do outlier (ponto atípico) no cálculo do resultado do PIB com ajuste sazonal, que causou tanta polêmica na divulgação dos dados do quarto trimestre do ano passado, foi o motivo que levou às fortes revisões nos dados trimestrais. A gerente do IBGE explicou que, quando foram introduzidas novas ponderações para os resultados de 2007 e 2008, o sistema de cálculo não reconheceu mais o outlier, que foi retirado, mudando os dados.

 

Outlier é uma expressão em inglês utilizada em estatística que significa que um resultado é muito atípico, fora da curva. Segundo Rebeca, se o outlier ainda fosse detectado na introdução dos dados do terceiro trimestre na série, as revisões teriam sido de menor magnitude. "O modelo (de cálculo) não detectou o outlier por muito pouco, é um período muito instável", disse ela. O instituto divulgou hoje uma revisão no resultado do PIB do segundo trimestre de 2009 ante o primeiro trimestre do mesmo ano, de 1,9% para 1,1%, além de várias outras mudanças nos dados trimestrais.

 

"A taxa com ajuste sazonal, numa época em que a economia tem uma dinâmica diferente, traz mais riscos de uma revisão maior", disse Rebeca. Ela exemplifica que o Japão também divulgou ontem uma revisão significativa do PIB trimestral, de 1,2% para 0,3%. "É um momento de instabilidade e todos os países estão praticamente brigando com os seus números por isso", acrescentou o coordenador de contas nacionais, Roberto Olinto. Segundo ele, "o modelo detectou o outlier e nós respeitamos". "Com o passar do tempo, o modelo criou uma nova opção", disse.

 

Rebeca já tinha adiantado, no primeiro trimestre deste ano, que a revisão dos dados na série com ajuste sazonal, a partir do quarto trimestre do ano passado, poderia ser forte. Na época, em entrevista à Agência Estado, Rebeca havia dito que, no caso do "outlier", a opção do instituto foi correta.

 

Rebeca ressaltou agora, entretanto, que a questão do outlier foi responsável pela magnitude das revisões, maior do que ocorreria normalmente, mas sempre há revisão na série com ajuste sazonal com a introdução de novos dados. Ainda segundo ela, os dados do segundo trimestre e do primeiro trimestre de 2009 ante iguais períodos do ano passado, também divulgados hoje, tiveram como principal motivo da revisão a introdução de novos dados consolidados que antes eram apenas estimativas.

 

Segundo Rebeca, o "outlier" poderá voltar mais à frente com a introdução dos dados do terceiro trimestre. "Pode ser que o modelo introduza o outlier de novo e se isso ocorrer teremos mais revisões na série com ajuste", disse ela.

 

O coordenador de contas nacionais do IBGE, Roberto Olinto, diz que a questão do outlier não explica sozinho todas as revisões divulgadas hoje, que também foram influenciadas pela divulgação, já ocorrida anteriormente, dos resultados consolidados de 2007 e da introdução de novas informações, também já consolidadas, relativas aos dados de 2008.

 

Agropecuária

 

O resultado também foi impactado pela contribuição negativa do PIB da agropecuária no terceiro trimestre deste ano, que caiu 9% perante o mesmo período do ano passado. A baixa foi influenciada por uma forte queda na produtividade de vários itens agrícolas, segundo a gerente Rebeca. "Ou seja: nós mantivemos quase que a mesma área plantada do ano passado, mas o que levou ao recuo no PIB do setor foi mesmo uma redução na produtividade destas mesmas áreas", afirmou.

 

A gerente diz ainda que na indústria, a baixa de 6,9% no PIB do setor no terceiro trimestre deste ano, ante o mesmo intervalo do ano passado, foi pressionada pelo recuo de 8,4% no PIB da construção civil. "Mas essa queda na construção civil no terceiro trimestre já foi mais intensa", acrescentou.

 

Além disso, o PIB da indústria de transformação registrou baixa de 7,9% no período em análise, sob influência negativa da produção de bens de capital.

 

(com Jacqueline Farid e Alessandra Saraiva da Agência Estado)

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