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Agricultura mais arejada

A nova safra de alta dos preços das commodities agrícolas foi uma das surpresas da economia nas últimas semanas

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2016 | 21h00

Uma das surpresas da economia nas últimas cinco semanas foi a nova safra de alta dos preços das commodities agrícolas. De 30 dias para cá, as cotações da soja subiram 10,3%; as do milho, 10,48%; as do café 6,01%; e as do açúcar, 15,24%.

Esses movimentos não estavam no radar dos analistas mais desatentos. Mas estavam no dos mais voltados para os fundamentos do mercado.

Os que não esperavam pela novidade estavam influenciados pelo movimento geral de fim do ciclo das commodities, cujo maior impacto de baixa atingiu e segue atingindo o petróleo e os minerais metálicos, em consequência da recessão prolongada da maioria dos países mais avançados.

Por conta disso, esses analistas botaram tudo no mesmo contêiner – petróleo, minério de ferro, café, soja e açúcar – e escreveram que todas as commodities vinham sendo prejudicadas pela nova fase de mercado.

Não levaram na devida conta que a economia da China passa por uma fase que é bem mais do que  uma desaceleração do seu crescimento. A mudança mais importante é a da qualidade de sua economia. Antes voltada para exportação, passou a focar o consumo interno.

Faz parte dessa equação o maior acesso da população mais pobre ao mercado de alimentos com maior teor proteico. Daí a demanda por mais carnes e por rações animais, cuja base é soja e milho.

Também ajudaram a puxar os preços dos alimentos problemas climáticos nos Estados Unidos e aqui no Brasil, que prejudicaram a produção de soja e de milho. 

Do ponto de vista da economia brasileira, há novas variáveis a levar em conta. A primeira delas tem a ver com a perspectiva de longo prazo. Se a transição da economia chinesa for bem-sucedida, os grandes produtores de alimentos, especialmente Estados Unidos, Brasil e Argentina, continuarão a ser beneficiados por uma procura firme. Não basta concluir que o agronegócio do Brasil, que vem mostrando ganhos crescentes de produtividade, terá muito a ganhar com isso, especialmente se houver incrementos na área de logística, como armazenamento e transporte. É preciso levar em conta que o produtor que demorar demais para tomar suas decisões de investimento poderá perder negócios.

A mais curto prazo, o produtor daqui deve tirar menos proveito dessa maré de alta porque a maioria deles já negociou os preços de suas safras de milho e soja, embora os embarques continuem fortes até setembro ou outubro. As melhores perspectivas, empurradas também pela desvalorização do real (alta do dólar), têm tudo para estimular a semeadura, que no Centro-Sul deve começar por volta de outubro. Se a tendência se confirmar, haverá impacto positivo sobre maquinaria e insumos agrícolas, especialmente sementes, fertilizantes e defensivos.

Mas não dá para ter uma avaliação linear sobre tudo. A safra dos Estados Unidos ainda não começou e ela pode mudar o jogo do mercado global. No caso do açúcar, o fator mais importante é a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), um tributo regulatório que o governo gostaria de usar como muleta arrecadatória. Se houver um aumento da Cide sobre os combustíveis, o usineiro pode desviar matéria-prima para a produção de etanol (álcool) e, assim, reduzir a de açúcar, movimento que pode ter forte impacto sobre a relação de preços. E o café, cuja colheita está para começar, pode ser prejudicado por chuvas imprevistas.

Variável importante é o tratamento que o governo dará para as dívidas do produtor, decisão que está para ser tomada pelo governo Temer.

Enfim, as perspectivas do agronegócio parecem promissoras e podem ajudar a alavancar a economia, hoje vacilante, a partir do crescimento da renda no interior. É esperar para ver.

 

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